Review: ‘Ponto sem Retorno’: ficção pós-apocalíptica de alma

Jacob Elordi e Margaret Qualley estrelam adaptação do livro de Peter Heller

Não é mistério por que a Disney tratou “Ponto sem Retorno” com discrição: lançamento no fim do verão americano, adiado da primavera, pouca divulgação, sem premiere nos EUA e um trailer enganoso, que parece mais um entre tantos thrillers pós-apocalípticos. O filme é discreto em excesso, e alguns dirão que falta força, mas é possivelmente o melhor trabalho de Ridley Scott desde “Perdido em Marte”, há 11 anos. Aos 88 anos, o prolífico diretor não perdeu o gosto pela ação explosiva, mas aqui esses surtos aparecem envoltos em drama mais reflexivo.

Adaptado por Mark L. Smith, de “O Regresso” e “Twisters”, a partir do elogiado romance de Peter Heller, o filme tem cara de faroeste melancólico e centrado em personagens, em vez de um thriller de sobrevivência cheio de tiros. É uma aposta arriscada para quem quer ação pura, mas abre espaço para um público mais maduro, aberto a uma visão do futuro distópico em que a frieza e a selvageria são combatidas pela compaixão e pela esperança.

Jacob Elordi lidera com magnetismo introspectivo de estrela de cinema clássica, lembrando os tempos de Kevin Costner. A fotografia de Erik Messerschmidt, com vistas panorâmicas das montanhas da Itália como cenário para o Colorado, dá ao filme uma graça restauradora. Elordi interpreta Hig, um viúvo inseparável de seu cão Jasper, um pastor-belga malaise, e com uma relação afetuosa, porém espinhosa, com o veterano militar Bangley (Josh Brolin), que cuida das armas e fortificações em um hangar abandonado, enquanto Hig, ex-mecânico e piloto, faz voos de reconhecimento em uma Cessna.

 

Jacob Elordi and Margaret Qualley em ‘Ponto sem Retorno’ / Fabio Lovino – 20th Century StudiosA história se passa em 2035, uma década depois de uma pandemia de gripe que dizimou a população, e que levou a esposa de Hig. Em uma de suas missões, ele descobre uma nova banda de saqueadores conhecidos como “Reapers”, mais selvagens do que qualquer tribo anterior. Hig resiste a se afastar da bondade humana, o que o coloca em conflito com Bangley, e, ao captar um sinal de rádio de Grand Junction, parte sozinho em busca de algo mais próximo da civilização. Problemas no motor o forçam a parar perto de um rancho isolado, onde vive a jovem viúva Cima (Margaret Qualley), com seu pai hipervigilante, Pops (Guy Pearce).

Jacob Elordi and Margaret Qualley em 'Ponto sem Retorno' / Fabio Lovino - 20th Century Studios
Jacob Elordi and Margaret Qualley em ‘Ponto sem Retorno’ / Fabio Lovino – 20th Century Studios

Margaret Qualley entrega uma de suas atuações mais delicadas, retratando Cima como uma mulher marcada pela dor, mas disposta a se abrir para o amor. Allison Janney aparece em um interlúdio bizarro como ex-comissária de bordo em uniforme vintage, um momento que soa artificial no tom sóbrio do filme. O roteiro é leve em complexidade psicológica e há uma sensação de que a parte final foi cortada na edição, mas o elenco forte mantém o interesse. A trilha de Harry Gregson-Williams captura o coração gentil do filme, com passagens melódicas de violão, Dobro e cordas, ecoadas em faixas folk de Hozier e Caamp.

Contido, mas nunca entediante, “Ponto sem Retorno” dificilmente vai aparecer no topo do ranking de Ridley Scott, mas é um filme agradavelmente mellow, mesmo que isso pareça antitético a um drama pós-apocalíptico que vive à sombra da morte. O longa estreiou nos cinemas dia 27 de agosto.

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