Músico de New Orleans une samba, blues e gospel com Ingrid Silva no festival

Jon Batiste embalou o show desta segunda-feira no Rock in Rio como um pastor conduz um culto. Nesta congregação, o músico de New Orleans pregou a união entre a cultura dele e a nossa: foi do samba ao blues, do gospel ao Carnaval, partindo do princípio de que tudo faz bem para a alma. Isso ficou claro logo na primeira música, quando Jon abriu a apresentação cantando acapella, como uma espécie de louvor, antes de esquentar com um grupo de percussionistas cariocas.
“Isso não é um show, é uma prática espiritual. E de onde eu venho, quando a gente toca esse tipo de música, as pessoas não ficam paradas. Preciso sentir sua liberdade”, disse ao cantar “Freedom”. Sorridente, ele nunca deixou de se divertir e fez parecer fácil: puxou coro, dançou, tocou escaleta, bateria, deixou sua talentosíssima banda brilhar e, claro, foi ao piano, seu instrumento principal.
No piano, emendou um “Mas Que Nada”, deixando que a brasileira Nêgah Santos fizesse os vocais. Curiosamente, foi a segunda vez que o clássico de Jorge Ben apareceu no festival, já que no domingo ele havia sido tocado pelo Black Eyed Peas. Jon não é tão conhecido e mal tem sucessos radiofônicos, mas não importa: de New Orleans, o artista é versado na escola dos desfiles de rua e de estilos como o jazz e o gospel, que incorporam o público e a bagunça como parte da música.
Quando sentiu falta de algo, pediu ele mesmo e o povo atendeu, virando coro, percussão e festa. Foi o que aconteceu em “I Need You”, um de seus maiores sucessos, quando a plateia reconheceu na entrada da percussão que era hora de dançar. Mais recentemente, o artista embarcou em um ambicioso projeto de releituras, incorporando sua trajetória aos cânones em “Beethoven Blues” e “Black Mozart”.
Nesta noite, essa foi a hora da contemplação. Batiste deu uma palhinha de “Für Elise”, de Beethoven, no piano, e depois seguiu tocando “Chega de Saudade”, quando entrou a bailarina Ingrid Silva. Foi um show de musicalidade como nenhum outro nessa edição até aqui, sem firulas, com uma camiseta azul do Brasil e um sonho.
A ponte Rio-New Orleans foi o tema da congregação, que terminou em festa: com sua banda, Jon se aproximou em fila no palco, no que ele chama de “love riot”, ideia inspirada nos second lines de sua terra. O show reuniu uma galera, mas Jon dividiu horário com Belo, no Palco Favela, e deve ter perdido uma parcela do público. Quem ficou por ali testemunhou, se divertiu e dançou. Amém.
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