
Poucas bandas podem subir ao palco do Rock in Rio e afirmar que fazem parte da própria história do festival. O Barão Vermelho pode. Neste domingo, Frejat, Dé Palmeira, Guto Goffi e Maurício Barros — quatro músicos que estiveram na primeira edição, em 1985, ainda com Cazuza nos vocais — voltaram ao Palco Mundo para celebrar mais de quatro décadas de uma das bandas fundamentais do rock brasileiro.
Foi um show construído especialmente para quem acompanha o Barão Vermelho. O repertório passeou pelos grandes sucessos da era Cazuza e pelas músicas lançadas depois que Frejat assumiu os vocais, mostrando como a banda conseguiu atravessar diferentes fases sem perder a própria identidade. Mais do que uma sequência de hits, a apresentação funcionou como uma viagem pela história do grupo e, inevitavelmente, pela memória do rock nacional.
A relação com o Rock in Rio tornou tudo ainda mais simbólico. A edição de 1985 não é lembrada apenas por ter sido a primeira, mas pelo tamanho de seu line-up e pela maneira como ajudou a transformar a música ao vivo no Brasil. O Barão estava lá, fazendo parte daquele momento, quando o rock brasileiro começava a ocupar definitivamente os grandes palcos. Quatro décadas depois, a banda voltou não como uma peça de museu, mas como um grupo ainda potente, maduro e musicalmente afiado.
O momento mais emocionante aconteceu em “Todo Amor Que Houver Nessa Vida”. A banda trouxe Cazuza de volta ao palco por meio de sua voz e de imagens exibidas no telão. Frejat começou cantando e, aos poucos, passou a dividir os versos com o antigo vocalista. O dueto atravessou o tempo e transformou a música em uma homenagem delicada, sem exageros, mas carregada de significado. O Barão já havia usado esse recurso em outros momentos de sua trajetória, mas vê-lo novamente no Rock in Rio, justamente ao lado da formação que esteve no festival em 1985, deu outra dimensão à cena.
Frejat, aliás, foi um espetáculo à parte. Sua voz parece não ter envelhecido um único dia. A interpretação continua firme, reconhecível e cheia de personalidade. Na guitarra, ele também permanece preciso, conduzindo riffs e solos com a naturalidade de quem ajudou a construir o vocabulário do rock brasileiro. Para quem cresceu como eu, acompanhando o Barão durante os anos 1990, especialmente na época em que músicas como “Por Você” e “Puro Êxtase” dominavam as rádios e a MTV, foi impossível não ser atravessado pela memória afetiva.
Outro acerto foi a presença de Fernando Magalhães. Embora não faça parte da formação original, ele entrou oficialmente para o grupo em 1989 e foi essencial na construção do Barão Vermelho pós-Cazuza. Anunciado como convidado, Fernando permaneceu durante praticamente toda a apresentação, ocupando um espaço que não poderia ser diferente: integrado à banda e reconhecido como parte fundamental de sua história. Seus solos continuam sendo uma das marcas mais fortes do som do Barão.
Essa presença também diz muito sobre a maneira como a banda trata o próprio legado. Assim como homenageia Cazuza sem transformar sua ausência em exploração, o Barão reconhece a importância de Fernando Magalhães na trajetória que veio depois. É uma celebração coletiva, que entende que a história de uma banda tão longeva é construída por diferentes pessoas, fases e contribuições.

O show também reforçou algo que vem chamando atenção nesta edição do Rock in Rio: o rock voltou a ocupar o centro das conversas. Ele aparece por meio de bandas históricas, como o próprio Barão Vermelho, mas também através de novos artistas que estão encontrando espaço e renovando o gênero. Não apenas dentro do rock nacional, mas no cenário mundial. A convivência entre essas gerações mostra que o rock não está preso ao passado. Ele continua vivo, mudando de forma e encontrando novos públicos.
O Barão Vermelho fez uma apresentação para os fãs, mas também entregou uma verdadeira celebração do festival e do rock brasileiro. Uma banda madura, tecnicamente impecável e consciente da importância que carrega. O passado esteve presente o tempo inteiro, mas nunca como nostalgia vazia. Estava ali como memória, fundamento e combustível.
Mais de 40 anos depois, o Barão continua tocando muito. Continua emocionando. E, quando Frejat, Dé, Guto, Maurício e Fernando dividem o mesmo palco, fica evidente que algumas histórias não envelhecem. Elas apenas ganham novos capítulos.
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