Filme percorre cinco cidades brasileiras e mostra como cozinhas transformaram territórios
Cinco anos depois de as primeiras Cozinhas Solidárias surgirem em meio à crise sanitária da Covid-19, uma produção documental transforma em cinema as histórias de quem encontrou nesses espaços muito mais do que uma refeição. “Vem Comer com a Gente – Cozinhas Solidárias”, dirigido por Thomaz Pedro, estreia em 17 de setembro, às 19h30, no Espaço Petrobras de Cinema, em São Paulo. Com 70 minutos de duração, o filme acompanha cinco personagens em diferentes regiões do país para investigar como uma iniciativa emergencial de enfrentamento à fome passou a estabelecer relações também com cidadania, trabalho, organização comunitária e agricultura familiar.

Criadas pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) durante a pandemia, em 2021, as primeiras Cozinhas Solidárias nasceram em um contexto marcado pela insegurança alimentar e pelas dificuldades enfrentadas principalmente por famílias das periferias. A iniciativa cresceu e, em 2023, passou a integrar uma política pública nacional de combate à fome. Segundo os dados apresentados pela produção, atualmente existem 1.406 cozinhas habilitadas e 221 entidades gestoras do Terceiro Setor credenciadas. Aproximadamente 13 milhões de refeições já foram distribuídas, enquanto cerca de 21 toneladas de alimentos provenientes da agricultura familiar foram destinadas às cozinhas.
Em vez de abordar esse processo apenas por meio de números, Thomaz Pedro constrói a narrativa a partir das experiências de cinco personagens. No Rio de Janeiro, o entregador de aplicativo Jonathan encontra na cozinha um lugar para alimentação, descanso e articulação entre trabalhadores. Em Maceió, Mila, que já enfrentou a fome, atua hoje alimentando outras pessoas em uma cozinha integrada a diferentes atividades comunitárias. Em Santo André, Patrícia, mãe solo e chefe de família, encontra alimentação, convivência e apoio; enquanto, em Santa Isabel, o agricultor familiar Fernando revela o caminho percorrido pelos alimentos antes de chegarem aos pratos. Já em Porto Alegre, Lili participa de uma cozinha que acolhe pessoas em situação de rua e estabelece vínculos que podem ultrapassar o momento da refeição.
A escolha por acompanhar o cotidiano permite que o documentário observe as Cozinhas Solidárias como estruturas inseridas em uma rede social mais ampla. Trabalho, religião, mobilização, agricultura, cuidado e pertencimento aparecem entrelaçados às refeições preparadas diariamente. A proposta do diretor é privilegiar gestos, deslocamentos e relações, evitando transformar o filme em uma exposição didática sobre o tema. Dessa maneira, são as próprias experiências dos personagens que revelam como uma política voltada inicialmente à alimentação pode produzir diferentes impactos nos territórios onde funciona.
Após o lançamento em São Paulo, “Vem Comer com a Gente – Cozinhas Solidárias” ficará disponível online até 2 de outubro. Na sequência, o documentário seguirá para festivais e para um circuito de Distribuição de Impacto, estratégia que prevê exibições direcionadas a comunidades, organizações e públicos relacionados às questões discutidas pelo filme. Mais do que ampliar sua circulação, a proposta é utilizar as sessões como pontos de partida para debates, encontros e possíveis ações que continuem para além da tela.
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