A avenida Paulista ganha um novo endereço para a arte. O Conjunto Nacional agora abriga o Nubank Arte Lab, e a primeira mostra do espaço é brasileiríssima: “O Brasil de Tarsila”. A exposição ocupa 1.195 m² distribuídos em 14 ambientes imersivos, com projeções de 360 graus, trilha sonora, efeitos especiais e até aromas que conduzem o visitante por mais de 70 obras de Tarsila do Amaral — em cartaz até 31 de outubro.
O novo espaço foi pensado para receber mostras imersivas: são 2.700 m² no primeiro andar do edifício, com salas modulares, pé direito alto, sensores de temperatura e cheiro e um telão digital transparente de 84 m² logo na fachada.
Na exposição, os quadros ganham vida. Em “O Porto”, os barcos se movimentam sobre as águas; no “Autorretrato”, Tarsila pisca e mexe a cabeça; e o pequeno anfíbio saltitante de “O Sapo” encontra o homem do “Abaporu”. O personagem mais famoso da artista também vira um boneco do chão ao teto, pronto para a famosa selfie.
Na sala dos “Operários”, o olhar crítico da artista sobre o Brasil ganha força: ao girar as engrenagens, os rostos dos trabalhadores vão preenchendo o telão — e o visitante pode bater o ponto como um operário de fábrica e sair como um dos rostos do quadro. A obra, de 1933, reflete o crescimento urbano brasileiro e as influências da viagem de Tarsila à antiga União Soviética.

A “Floresta Antropofágica” é pura imersão sensorial: vegetação com formas curvas, piscina de bolinhas, sons de bichos da mata e o cheiro de folhas, madeira e terra úmida. Um ambiente de espelhos multiplica as cores e as formas das obras por todos os lados — um dos cenários mais procurados para fotos — e o espaço lúdico, com gangorra e escorregador, vira brincadeira para toda a família.
Uma das instalações mais afetivas é o vagão de trem que leva o visitante a uma viagem no tempo: cada cabine representa um dos lugares por onde Tarsila passou, da França e da Itália à antiga União Soviética. “A gente não só traz as obras — a gente traz o contexto do que a Tarsila estava vivendo”, diz a curadora Paola do Amaral Montenegro.
Nascida em 1886 em Capivari, no interior de São Paulo, Tarsila do Amaral se tornou um dos maiores nomes das artes do Brasil. Figura central do modernismo, é dela uma das obras mais famosas do país: o “Abaporu”, de 1928, que inspirou o Movimento Antropofágico de Oswald de Andrade — a ideia de “devorar” as referências europeias para criar algo genuinamente brasileiro. O original está no Malba, em Buenos Aires, comprado em leilão em 1995 pelo colecionador Eduardo Costantini. Ela morreu em 1973, mas o legado atravessa gerações.
A curadoria é assinada por Juliana Miraldi, pesquisadora que uniu a academia à arte digital, e por Paola do Amaral Montenegro, sobrinha-bisneta de Tarsila e representante da Tarsila do Amaral S.A. “Esse foi um dos trabalhos mais gratificantes que já tive oportunidade de fazer na minha vida”, conta Juliana. “Nós fizemos um trabalho de três anos de pesquisa para construir essa expografia.” Para Paola, o projeto tem sabor especial: “Tudo o que vocês estão vendo foi muito pensado para que ninguém tivesse uma experiência que assustasse — ou que não identificasse a Tarsila.”

Um detalhe importante: todo o conteúdo audiovisual foi desenvolvido por artistas visuais, e não por inteligência artificial. A tecnologia é usada como ponte para ampliar a experiência — e não como substituta da criação. “A gente optou também pra que eu desse a voz, pra não utilizar a voz da Tarsila com inteligência artificial”, revela Paola, que empresta a própria voz à artista na mostra.
A maior sala da exposição, a Antropofagia, levou um ano de produção e tem trilha sonora original do BaianaSystem, com a participação especial de Tom Zé, representante da tropicália. A música atualiza o princípio antropofágico quase um século depois de sua formulação.
Para a curadora Juliana Miraldi, a imersão também tem papel social. “As exposições imersivas são uma porta: elas te dão a possibilidade de conhecer um artista de uma maneira completamente nova. E elas quebram com um certo elitismo — podem ser um passo para que as pessoas sigam para as grandes instituições de arte”, afirma.
Para João Giani Vasconcellos, CEO da Liveidea — que desenvolve o projeto ao lado da Tarsila do Amaral S.A., com a Aventura na coprodução —, a mostra nasceu de uma inquietação. “Quando eu penso em Brasil, penso em lugar de destaque, penso em identidade. Não tem como não pensar em Tarsila. O insight nasceu de um incômodo: homenagear artistas brasileiros pro Brasil e pro mundo afora”, diz. A inspiração veio de exposições que ele viu fora do país: “A primeira que eu fui foi Van Gogh. Aquilo me deixou falar: nossa, que incrível você pegar uma pintura e trazer dessa forma.”
O Nubank Arte Lab, por sua vez, quer ser mais do que um espaço de artes visuais. “Quero levar pro Brasil um conceito que não se restringe às artes visuais — um negócio multifacetado, passando pelo espectro absoluto da chamada economia criativa”, afirma Luiz Calainho, sócio-diretor de marketing e negócios da Aventura. A programação do local já prevê exposições como a do personagem Snoopy. “É muita programação: é só chegar que só tem coisa lá no alto.”

O Brasil de Tarsila
📅 Quando: até 31 de outubro de 2026, de quarta a segunda e feriados, das 10h às 21h
📍 Onde: Nubank Arte Lab — Conjunto Nacional (av. Paulista, 2.073, Consolação, São Paulo)
💰 Quanto: R$ 25 a R$ 100
🔗 Mais informações e ingressos: fever.com.br
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