Romance une sátira política, distopia e grotesco sobre o Brasil

Em O ano da desordem, novo romance do jornalista e escritor paulistano Luiz Fernando Treviso, o Brasil é retratado sob uma farsa política impulsionada pela histeria midiática em torno de uma profecia. Após a repercussão de sua estreia literária “Era uma vez em Parpoplanca”, Treviso apresenta uma sátira sobre disputas de poder, preconceito de classe e a precarização do trabalho, abordando as tensões sociais do Brasil contemporâneo ao contrapor o messianismo autoritário, a organização de entregadores e a profecia de um redentor negro.
A história começa quando a profecia de uma vidente sobre a volta de um Salvador desencadeia uma corrida oportunista em rede nacional. Quem capitaliza o fanatismo é um caricato político de elite, que ascende ao poder e instala um regime ditatorial. Em resposta, um motoboy e um sambista organizam trabalhadores precarizados e fundam um partido popular. O conflito se intensifica quando o regime autoritário é abalado por uma nova profecia: o verdadeiro redentor nasce na periferia e é um menino negro. Ameaçado, o governo dá início a uma perseguição de perfil supremacista.
Ao utilizar o grotesco e o choque como recursos narrativos, o romance expõe o cinismo dos setores dominantes e a rotina exaustiva dos entregadores urbanos. A escolha do absurdo atua como denúncia do contraste social causado pela desigualdade e dá protagonismo à vida e aos dilemas da classe trabalhadora. O texto também aposta na inventividade, propondo jogos de nomes e termos ácidos, como o aplicativo de entregas “Eu Como” (apelidado jocosamente de “Eu Fodo”), partidos políticos com siglas provocativas e figuras públicas que ganham batismos expressivos relacionados a personagens da vida real.
“O ano da desordem” aproveita o repertório transmídia de Treviso. A estrutura do novo livro reflete sua experiência no audiovisual e como co-criador do podcast “Cineblábláblá”. Com ritmo ágil, diálogos diretos e situações de impacto, a narrativa dispensa eufemismos para tratar de temas urgentes: a mercantilização da fé, a precarização algorítmica do trabalho e o racismo estrutural.
Luiz Fernando Treviso nasceu e vive em São Paulo. Sua formação inclui jornalismo, pós-graduação em gestão cultural e em produção audiovisual, além de cursos livres de teatro, cinema e roteiro. “Era uma vez em Parpoplanca”, sua estreia literária, inaugurou um universo ficcional construído com liberdade, irreverência e o prazer de contar histórias do próprio jeito do qual “O ano da desordem” também faz parte. Além dele, publicou “Paranoia e outros contos”, todos pelo Clube de Autores. Entre suas referências literárias estão autores como Stephen King, Jorge Amado, Charles Bukowski e Edgar Allan Poe.
Atualmente, o projeto intitulado “Confissões de um jovem cineasta” está em desenvolvimento. A narrativa gira em torno de um jovem negro que realiza seu primeiro longa-metragem de sucesso em 1989, dentro de um contexto ligado ao cinema independente. Após esse momento de reconhecimento, sua vida sofre uma ruptura a partir de uma perda pessoal, o que desencadeia um quadro de depressão. A história acompanha sua tentativa de reconstrução em um período turbulento do país, marcado pelo confisco das contas bancárias durante o governo Fernando Collor de Mello.
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