‘Amor, Sexo & Sapatos’ transforma São Paulo em personagem

Durante mais de uma década, o jornalista Dalton Germano percorreu São Paulo registrando seus restaurantes, bares, eventos, personagens e transformações urbanas. Agora, a mesma cidade observada diariamente em sua atuação como criador do Guia SP 24h ganha uma nova forma: a ficção. Em “Amor, Sexo & Sapatos” (Novelo Editorial), seu livro de estreia, Germano transforma a capital paulista em personagem ativa de uma narrativa que investiga as relações e afetos contemporâneos através de um grupo de amigos que tenta encontrar amor, pertencimento e sentido em uma metrópole marcada por excessos, velocidade e reinvenção permanente.
A ideia do livro nasceu há cerca de quinze anos e amadureceu paralelamente à carreira do autor como jornalista. Nesse período, São Paulo também mudou: novos bairros ganharam protagonismo cultural, aplicativos transformaram a forma de conhecer pessoas, relações se tornaram mais fluidas e a cidade passou a produzir novas formas de convivência e solidão. “Percebi que muitas histórias que eu observava como jornalista falavam menos sobre lugares e mais sobre pessoas. A cidade era o elo entre elas. Aos poucos entendi que queria escrever sobre essa experiência de viver em São Paulo, onde milhões de pessoas se cruzam diariamente tentando construir vínculos em meio à correria”, afirma o autor.
A obra acompanha cinco mulheres — Isa, Manu, Pri, Giulia e Gigi — e Théo, jornalista e observador das relações humanas, que funciona como fio condutor da narrativa. Seus caminhos atravessam lugares reais de São Paulo, como o icônico Edifício Martinelli, a Avenida Paulista e o Parque Ibirapuera, além de cafés, apartamentos, bares e festas da capital, compondo um mosaico urbano que dialoga com questões centrais da vida contemporânea: liberdade, desejo, amizade, moda, misoginia, sexualidade, solidão, frustração amorosa e busca por identidade.
A narrativa dialoga com referências inevitáveis como “Sex and the City”, porém “Amor, Sexo & Sapatos” procura construir uma identidade essencialmente paulistana, abandonando a idealização romântica da cidade para retratá-la como espaço de encontros improváveis, afetos transitórios e reinvenções constantes. Formalmente, a obra também evita modelos tradicionais: não é exatamente um romance linear nem uma coletânea de contos, funcionando como um romance fragmentado composto por histórias interligadas, personagens recorrentes e diferentes perspectivas que se cruzam ao longo do texto. A estrutura reflete a própria lógica da vida urbana contemporânea: múltiplas histórias acontecendo simultaneamente, conexões inesperadas e trajetórias que se encontram e se afastam ao longo do tempo. “A cidade nunca é a mesma. As pessoas também não. Eu queria que a estrutura do livro refletisse essa sensação de movimento permanente”, diz Germano.
Ao mesmo tempo em que retrata a efervescência cultural paulistana, a narrativa também investiga uma de suas contradições mais marcantes: a solidão em meio à multidão. Em uma cidade que oferece infinitas possibilidades de encontros, os personagens frequentemente se veem diante da dificuldade de construir vínculos duradouros. A capa do livro nasce do encontro entre a fotografia urbana de Mavinho Acoroni e a arte ilustrada de Jean Rosa, dupla reconhecida por transformar a paisagem de São Paulo em narrativa visual, com um resultado que traduz a essência do livro: uma cidade pulsante, feminina e contemporânea, onde realidade e imaginação caminham lado a lado. Mais do que uma história sobre relacionamentos, “Amor, Sexo & Sapatos” propõe uma reflexão sobre o modo como as grandes cidades moldam emoções, expectativas e formas de pertencimento.
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