Moda brasileira mergulha na tradição japonesa no SPFW

Coleção Verão 27 une arte, memória e transformação

A moda brasileira ganhou uma viagem pelas tradições japonesas durante a 61ª edição do São Paulo Fashion Week (SPFW N61). Na sexta-feira, 16 de outubro, a Handred apresentou a coleção “Vapor em Curso”, assinada pelo diretor criativo André Namitala, no Teatro Cultura Artística, em São Paulo. Inspirada em uma viagem do estilista ao Japão, a proposta explora os encontros entre tradição e modernidade, natureza e cidade, passado e presente, a partir de referências culturais, arquitetônicas e artesanais.

Crédito : Agência Fotosite.
Foto: Gabriel Cappelletti/ @agfotosite

A água é o elemento simbólico que conduz a coleção, representando energia, movimento e transformação. Assim como ela muda de estado sem perder sua essência, a proposta investiga como técnicas e referências atravessam gerações e ganham novos significados. “Fui ao Japão em busca do Japão que havia imaginado e encontrei muitos outros. A viagem me fez perceber que passado, presente e futuro não são lugares separados. O que mais me marcou foi observar como a tradição pode continuar viva justamente porque se transforma. ‘Vapor em Curso’ nasce desse movimento: da matéria, da água, do tempo e de tudo aquilo que muda sem perder sua essência”, explica Namitala.

Nas passarelas, sedas, organzas, linhos, algodões, transparências e alfaiataria deram forma a peças que exploram proporções, texturas, volumes e movimento. O desfile também reforçou a parceria criativa entre Namitala e Antonio Frajado, responsável pelo styling. Entre as inspirações estão os sentō, tradicionais casas de banho públicas japonesas, os ryokan, hospedagens que inspiraram uma estampa de luzes, sombras e tons terrosos, e a cerâmica japonesa, associada à matéria, ao uso e à memória. O movimento Mingei, que valoriza o artesanato e os objetos cotidianos, também aparece na pesquisa, assim como a aproximação entre a geometria têxtil japonesa e o Art Déco, traduzida em grafismos, laços e faixas.

Outra referência são as Mogas, conhecidas como “modern girls”, que inspiraram recortes geométricos, sobreposições, contrastes de texturas e volumes urbanos. A pesquisa têxtil destaca o Nishijin, tecido luxuoso produzido em tear manual no norte de Kyoto, apresentado em tons de laranja e dourado, e o Tsumugi, tecido artesanal de seda que representa uma expressão mais delicada da tradição japonesa. Esses elementos mostram como a coleção aproxima diferentes períodos e manifestações culturais, sem deixar de lado a identidade brasileira da marca.

Bordados, paetês, vidrilhos, patchworks e superfícies elaboradas completam a proposta, equilibrando técnicas manuais, materiais naturais e a precisão da alfaiataria. Mais do que uma inspiração estética, “Vapor em Curso” apresenta uma reflexão sobre permanência e impermanência, traduzindo a experiência de Namitala no Japão em uma nova etapa criativa. O resultado é uma coleção que transforma memórias de viagem em moda contemporânea, mostrando que tradição e inovação podem caminhar juntas, inclusive quando tudo parece estar em constante movimento.

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