Arte na Maternidade chega à terceira edição na Funarte

Residência reúne artistas mães e filhos em Belo Horizonte

Quatro artistas visuais mães participam, até 8 de outubro, da terceira edição do projeto “Exposição Arte na Maternidade”, realizado pelo coletivo MAM – Movimento Arte na Maternidade. Com acompanhamento curatorial, masterclasses e recursos financeiros para produção, a residência incentiva o desenvolvimento de processos criativos ao lado dos filhos.

Crédito: Fernanda Wardil

Com curadoria das artistas Ciana e Iaci Carneiro, a residência culminará em uma exposição gratuita entre os dias 20 e 24 de outubro, na Funarte-MG. O processo inclui encontros semanais para compartilhamento de pesquisas, além de masterclasses e saraus abertos em centros culturais de Belo Horizonte.

As artistas selecionadas para esta edição são Ada Medeiros, Amanda Olivier, Nathalia Fragoso e Tita De Lira. A exposição que encerra o período de residência será aberta ao público e também poderá receber escolas.

A iniciativa nasceu inspirada no formato proposto pela artista Lenka Clayton, mas ganhou características próprias ao longo dos anos de atuação do MAM. Em vez de exigir das artistas um afastamento da rotina de cuidados, o processo foi pensado para acontecer com os filhos — e não apesar deles.

Ciana, nome artístico de Luciana Brandão, conhece essa experiência de perto. Artista cênica e visual e mãe de Teresa, de 8 anos, ela participou como residente da primeira edição e agora retorna ao projeto como curadora.

“Quando fui artista residente, foi a possibilidade de reencontrar a minha voz e os meus interesses na arte, dando tempo e espaço para o meu maternar. Foi um respiro, já que além de tudo, vivíamos em pandemia”, relembra Ciana, que fundou o MAM ao lado de Bruna Toledo. O coletivo também conta com Iaci Carneiro e Isadora Mayrink.

“Voltar ao projeto hoje, como curadora, é um marco de amadurecimento para mim e para a Iaci, criando espaços para que nossa profissão exista, estudando, desenvolvendo nossa profissionalização e levando sempre mais mães conosco”, completa Ciana.

A curadoria é compartilhada com Iaci Carneiro, artista visual formada pela UFMG, mãe de Cora, de 8 anos, e Tiana, de 2. Ela também participou como artista contemplada na primeira edição do projeto, realizada em 2021.

“A residência do MAM proporciona um momento de virada muito interessante na carreira da mãe artista, especialmente com filhos na primeira infância. É momento de entender sua produção não só enquanto peça de arte, mas como processo criativo após a chegada dos filhos”, afirma Iaci.

Para a curadora, o projeto também permite reconhecer as estruturas necessárias para que a mãe artista continue trabalhando com arte. “O MAM oferece essa estrutura e diálogo para viabilizar isso. Também trazemos a seguinte reflexão – o que nos une é a condição do trabalho de cuidado latente, não o objeto de pesquisa em si. Nem toda mãe artista vai falar sobre a maternidade. Mas se falar, que fale com orgulho e segurança”, completa.

A primeira edição da residência aconteceu em 2021, durante a pandemia de Covid-19, reuniu três artistas residentes e teve exposição no Memorial da Vale. A segunda edição, realizada em fevereiro de 2026, nasceu de uma parceria com a galeria Quartoamado, que convidou o MAM para levar a residência e a exposição ao espaço.

Agora, na terceira edição, o projeto amplia sua presença. Além de a exposição final ocupar a Funarte-MG, a programação formativa passa por quatro territórios de Belo Horizonte, com masterclasses ministradas por Monica Ventura, Leticia Bassit, Ane Valls e Paula Kimo.

Os encontros serão complementados por edições do Sarau + Feira MAM, com apresentações de musicistas selecionadas por chamada aberta. Também haverá uma convocatória destinada a mães artistas interessadas em comercializar seus trabalhos.

A residência artística MAM se apresenta como uma estratégia de resistência diante de um cenário em que, segundo os dados apresentados pelo projeto, metade das mulheres brasileiras perde ou deixa o emprego até 24 meses após o nascimento de um filho. No campo das artes visuais, o coletivo aponta ainda desafios relacionados a rotinas noturnas e residências que exigem deslocamentos.

Para enfrentar essas barreiras, o projeto oferece bolsa de pesquisa, apoio de transporte, material artístico e curadoria dedicada, dentro de uma metodologia que acolhe a presença das crianças. A proposta é contribuir para a valorização e a (re)inserção da mãe artista no mercado das artes visuais.

“Além disso, sabemos que o processo criativo e metodológico da artista mãe, é diferente de quando essa artista não era mãe. A experiência individual de se reinventar como sujeito e artista após a chegada da maternidade é algo comum à todas as artistas”, explica Ciana.

Segundo ela, a coletividade tem papel importante nesse processo. “É por isso que a coletividade é importante para entendermos que não estamos sozinhas e que o caminho para o reencontro consigo, quando acompanhado de outras artistas na mesma condição, fortalece e ampara o desejo de seguir criando.”

As quatro selecionadas também chegam à residência em diferentes momentos de suas carreiras e transitam por diferentes linguagens. Para Tita De Lira, o próprio processo seletivo já representou uma oportunidade de reencontro com sua produção artística.

“Já foi maravilhoso, só pelo processo seletivo, me colocar diante dos meus trabalhos, ter contato com esse desejo de conexão com o mundo, que eu tenho enquanto artista e que estava colocada no lugar escuro da minha vida. Eu vejo como um momento de abertura, de reencontro comigo mesma”, afirma Tita.

A artista acrescenta que esse reencontro envolve não apenas aquilo que já produziu, “mas também com tudo que eu agora tenho efervescente dentro de mim, depois de tantas aventuras vividas nessa maternidade”.

Ada Medeiros também destaca o desafio de conciliar criação e maternidade. “O trabalho criativo exige presença, assim como a maternidade e desde que me tornei mãe, lidar com a sensação de precisar me dividir para conciliar as duas coisas tem sido muito difícil.”

“Agora, com a residência, vejo a possibilidade de estar mais inteira, com a tranquilidade de contar com uma estrutura pensada para acolher a mim, ao meu filho e às nossas necessidades”, completa Ada.

Como parte do programa de formação e fruição, estão previstas duas edições de Sarau nos Centros Culturais Lagoa do Nado e Usina, com feira de artes visuais de mães e masterclasses destinadas às artistas e ao público interessado. Todas as atividades são gratuitas.

A programação passa pelo Centro Cultural Lagoa do Nado em 19 de setembro, Centro Cultural Usina em 26 de setembro, Centro Cultural Alto Vera Cruz em 1º de outubro e Centro Cultural São Geraldo em 8 de outubro. A residência segue até 8 de outubro.

A exposição “Arte na Maternidade – 3ª edição” será realizada gratuitamente entre os dias 20 e 24 de outubro, na Funarte-MG, localizada na Rua Januária, 68, no Centro de Belo Horizonte. A programação e os formulários de inscrição serão disponibilizados na página do MAM no Instagram.

O projeto 0165/2024 é realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte.

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