Transe – Ato I: teatro como processo e memória

Espetáculo no Sesc Santo André une oficina, cena e debate em maio

Foto: André Okuma

Em maio, o Sesc Santo André apresenta uma programação que recusa a separação entre processo e resultado. Transe – Ato I chega ao palco não como obra isolada, mas como parte de um percurso que inclui oficina, espetáculo e encontro — três camadas de uma mesma experiência teatral. O ponto de partida é a dramaturgia desenvolvida durante a ocupação Cenas Centrífugas, realizada na própria unidade em 2019, quando grupos transformaram o espaço em ateliê coletivo de criação, atravessado por improvisação e troca.

A oficina O Cotidiano em TRANSE abre esse caminho ao tornar visível o que costuma permanecer nos bastidores. O público acompanha a reorganização do espaço, os ajustes de luz e som e as decisões de direção — assistindo à montagem não como resultado concluído, mas como processo em andamento. Ao final, um ensaio técnico reúne participantes e equipe em um mesmo fluxo, revelando a engrenagem que sustenta a cena.

É nesse contexto que o espetáculo se apresenta. Em Transe – Ato I, acompanhamos Ricardo, interpretado por Salloma Salomão, morador do bairro Jardim, em Santo André, herdeiro de uma estrutura familiar ligada à indústria que, ao ser atingido por um tiro, revisita sua trajetória em um fluxo de lembranças. A referência ao filme Terra em Transe atravessa o pensamento do personagem, embaralhando memória pessoal e imagens históricas. A narrativa se desloca, assim, para um território instável onde política e imaginação se entrelaçam.

A encenação se constrói a partir dessa fricção. O público observa Ricardo pela janela de sua casa, em uma estrutura móvel que gira e altera ângulos. A presença de um diretor-narrador e de contrarregras em cena — associados a “operários fantasmas” — rompe a ilusão teatral e tensiona a origem social do personagem. O figurino, elaborado a partir da reconstrução de uniformes de operários do ABC paulista, reforça a relação entre corpo, história e território. A trajetória de Ricardo aponta para uma memória social marcada por industrialização, militância, desigualdade e apagamentos, ativando uma geografia afetiva e política centrada em Santo André.

A programação se completa com a oficina Velhices, memórias e sensibilidades, também conduzida por Salloma Salomão. A partir de imagens, textos e relatos, o encontro aborda envelhecimento, etarismo, racismo, sexualidade e direitos, propondo uma troca entre gerações. Se o espetáculo apresenta um personagem em confronto com sua própria trajetória, a oficina amplia essa questão para o campo coletivo — construindo, junto ao público, um debate sobre memória e experiência na contemporaneidade.

De 1, 2 e 9/5, sextas e sábados, às 19h
Dia 8/5, sexta, às 20h
Teatro
Não recomendado para menores de 16 anos

SESC SANTO ANDRÉ
Rua Tamarutaca, 302 – Vila Guiomar – Santo André
Telefone – (11) 4469-1200
Estacionamento: R$ 7,00 a primeira hora e R$ 2,00 por hora adicional (Credencial Plena). R$14,00 a primeira hora e R$ 3,50 por hora adicional (Outros)
Informações sobre outras programações: Sescsp.org.br/santoandre

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