Exposição dialoga com narrativas negras, femininas e ancestralidade no CCSP

Mais do que uma coincidência com a data do 8 de março, a proximidade com o Dia Internacional das Mulheres amplia as leituras de uma exposição atravessada por narrativas negras e femininas, ancestralidade e heranças matriarcais. A mostra resulta de uma pesquisa que investiga conexões entre capital e interior, construída a partir da escuta de mestras e mestres em cidades como Piracicaba, Pirapora do Bom Jesus, Santana de Parnaíba, Tietê e São Paulo. Essa investigação evidencia como tradições culturais negras se deslocam, se reinventam e se mantêm, atravessando também uma dimensão pessoal, ao provocar um reencontro simbólico da própria artista com sua ancestralidade, em diálogo com a família originária de Piracicaba.
A produção apresentada amplia procedimentos que Soberana Ziza vem desenvolvendo nos últimos anos, especialmente a investigação da imagem figurativa e das narrativas ausentes. Um dos núcleos da exposição retoma o uso de tecidos voal com sublimação, suporte que opera visualmente a tensão entre presença e apagamento. Para a artista, a escolha do voal parte da compreensão de que essa história jamais será contada de forma completa: a transparência cria camadas que revelam e ocultam ao mesmo tempo, mantendo sempre o futuro no primeiro plano, com figuras que se apresentam como eternas e em pleno protagonismo.
Além dos trabalhos em tecido, a exposição inclui obras em madeira, material que, na poética de Ziza, evoca ancestralidade, enraizamento e continuidade. A artista associa a madeira à ideia de árvore, entendida como uma mulher que gera frutos, sendo o próprio fruto a ancestralidade, o conhecimento e a memória. Para a curadora Renata Felinto, a mostra propõe uma revisão crítica da memória cultural paulista, construindo, com diferentes linguagens, uma leitura sensível de territórios negros historicamente invisibilizados. O trabalho de Soberana Ziza atua como reinscrição histórica, entrelaçando estética, memória e experiência vivida.
Ao ocupar o Centro Cultural São Paulo, a exposição tensiona narrativas oficiais e reafirma a presença negra como dimensão estruturante da cidade. A curadora descreve Ziza como uma arqueóloga de presenças, que busca indícios de uma continuidade centenária manifestada não apenas no plano rítmico, mas também nas formas de organização, nos vínculos comunitários e na patrimonialização da cultura. Em “Territórios de Permanência”, essa investigação se desdobra em uma pesquisa de fôlego, construída por entrevistas, anotações, deslocamentos e convivência, evidenciando a excelência de indivíduos e coletivos, sobretudo de mulheres, mestras e mantenedoras de saberes corpóreos, musicais e orais. A exposição se configura, assim, como uma monografia traduzida em visualidade, em que a ampliação de procedimentos, técnicas e materialidades revela um corpo de pesquisa que se deixa ler em camadas e ativa o encontro como dimensão central da experiência.
Ziza reforça o caráter político do projeto ao refletir sobre o papel da arte no Brasil, entendendo a produção artística como ferramenta de disputa de narrativa, de memória e de denúncia, mas também de afeto e de reconstrução. A abertura da exposição conta ainda com o pocket show Tambú, da cantora Luana Bayô, cuja pesquisa musical dialoga diretamente com as matrizes do samba e do jongo, ampliando no espaço expositivo a experiência de escuta e partilha que atravessa todo o projeto.
Serviço
Exposição: Território de Permanência
Artista: Soberana Ziza
Local: Centro Cultural São Paulo – Piso Flávio de Carvalho
Endereço: Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso – São Paulo
Abertura: 07/03/2026
Horário: 18h
Visitação: 08/03/2026 a 03/05/2026
Terça a sexta, 10h às 20h
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