Segunda individual do artista revive a maturação técnica e poética após Lapidar Imagens

A exposição Rafael Pereira: A Cabeça de Zumbi, segunda mostra individual do artista na Galeria Estação, abre a programação de 2026 do espaço paulistano com um conjunto de 27 pinturas inéditas e a série Nbimda, dedicada a 16 divindades do candomblé de Angola de matriz Bantu. Com texto de catálogo assinado por Renato Menezes, a mostra evidencia a maturação de Rafael Pereira, que amplia repertórios, técnicas e subjetividades após o impacto de Lapidar Imagens, sua primeira individual na galeria, realizada em 2023. A exposição fica em cartaz de 5 de março a 11 de abril, consolidando o nome do artista de 39 anos como um dos expoentes mais sensíveis e complexos da cena contemporânea paulistana.
Nascido em São Paulo, Rafael percorreu diversos Estados do Brasil e viveu por 14 anos decisivos em Teófilo Otoni (MG), antes de se estabelecer em Caraguatatuba, no litoral norte paulista. Essa trajetória ampliou não só sua referência geográfica, mas também sua sensibilidade às culturas regionais, religiões afro‑brasileiras e a noção de corpo, memória e ancestralidade presentes em seu trabalho. Após Lapidar Imagens, o artista atravessou um ciclo de amadurecimento que o levou a revisitar aspectos estruturantes de sua trajetória: desde a formação como lapidador de pedras preciosas até as vivências de deslocamento e de encontro com diferentes comunidades. Esse percurso se desdobra agora em uma mostra que articula memória, identidade e subjetividade, em que a pintura funciona tanto como arquivo quanto como dispositivo de reinvenção.
“Desde que Rafael entrou na Estação, em 2023, acompanhamos de perto seu processo consistente de amadurecimento. Ele é um artista que cresceu em segurança, em repertório e em consciência do próprio trabalho. Entre Lapidar Imagens e esta nova individual, sua obra ganhou densidade. A exposição reflete um salto real em sua trajetória. Quando um artista como ele encontra um espaço institucional que o apoia, ele ganha o mundo”, defende Vilma Eid, sócia‑fundadora da Galeria Estação. A relação de continuidade estabelecida entre a primeira e a segunda mostra, segundo a galegista, foi essencial para que Rafael se sentisse mais livre para arriscar, aprofundar processos e ampliar sua linguagem visual, sem cair em fórmulas.
Produzidas entre 2023 e 2025, as pinturas inéditas incorporam um universo multicolorido de retratos, paisagens e elementos simbólicos que emergem de um processo de desaceleração consciente na produção do artista. “Hoje eu sinto que o meu trabalho acontece em outro tempo. Antes, eu tinha muita urgência, uma necessidade de produzir o tempo todo, quase como se eu precisasse provar alguma coisa. Agora eu entendo que esses processos devem ser mais lentos, que a pintura precisa de tempo para maturar, assim como eu”, explica Rafael. Essa mudança de ritmo se reflete na densidade das cores, no encontro entre traço controlado e gesto livre, e na maneira como cada figura parece existir entre o real e o inventado, entre o reconhecível e o quase‑fantasmagórico.
Organizada em dois núcleos expositivos, a mostra reúne 27 pinturas no 2º andar da Galeria Estação, e apresenta, no mezanino, a série Nbimda, formada por 16 pinturas de cabeças de dimensões variáveis, cada uma representando uma divindade (nkisi) do candomblé de Angola. Ao abordar esse conjunto, o historiador da arte Renato Menezes destaca a centralidade simbólica da cabeça como elo entre o corpo, a ancestralidade e o divino. “O que para os europeus se apresentou unicamente como fisionomia, isto é, como emanação da personalidade, revela-se na pintura de Pereira como elo com o divino: a cabeça, orí para os iorubás e mutuê para os bantos. É na cabeça onde reside a força vital do indivíduo; está ali sua conexão com o nkisi, a energia ancestral e destino individual que cada sujeito traz consigo ao nascer. O tema da cabeça ancestral organiza a série Nbimda”, escreve no catálogo.

Ao exaltar e ressignificar a ancestralidade afrodiaspórica que constitui parte majoritária da sociedade e da formação cultural brasileira, Rafael explicita sua intenção de dar maior complexidade às discussões sobre racialidade, afastando‑se de leituras reducionistas em favor da construção de uma subjetividade negra mais profunda. “Não quero que meu trabalho seja lido só a partir de um corte racial. Não quero que um corpo negro sorrindo seja visto como um acontecimento, enquanto um corpo branco sorrindo é só uma imagem. O que me interessa é construir uma subjetividade negra que seja complexa, íntima e contraditória. Não quero negar a questão racial. Quero ir além dela. Quero que meu trabalho seja visto como imagem e experiência, e que a negritude esteja ali de forma profunda, não como um rótulo”, provoca o artista.
Segundo Menezes, a produção recente, marcada pela força intuitiva do gesto pictórico, expande ainda mais as leituras possíveis sobre a obra de Rafael, já insinuadas na interpretação modernista dos trabalhos anteriores presentes em Lapidar Imagens. “Em um primeiro momento, sua obra parece resultar diretamente da absorção desses códigos da retratística tradicional para, a partir deles, imaginar futuros, reconstituir histórias e inventar identidades, superando o modo como a vida negra foi avaliada. Por outro lado, o artista cria fisionomias a partir de sua imaginação, como em um exercício de ajuste de contas com a história e de acesso a uma dimensão da memória neutralizada pelo trauma: a intuição é uma tecnologia ancestral. Assim, ele faz reexistir, por meio de suas cores, a presença viva de pessoas atravessadas por sentimentos, pensamentos e desejos silenciosos”, observa no texto crítico.
A exposição também evidencia a ampliação de técnicas experimentadas por Rafael ao longo de seu período formativo, como o uso de bastão de giz pastel óleo sobre papel, que revela processos investigativos de um trabalho em transformação. Parte das obras foi produzida em março de 2025, durante a residência artística realizada por ele no Sertão Negro Ateliê e Escola de Artes, em Goiânia (GO), projeto idealizado por Dalton Paula e Ceiça Ferreira, localizado em um quilombo no bairro Setor Shangri‑lá. O espaço articula tradições culturais afro‑brasileiras com práticas de arte contemporânea, com atividades em cerâmica, gravura, capoeira‑angola, agroecologia e cineclube, criando um ambiente de diálogo entre arte, comunidade e memória.
“A residência no Sertão Negro foi decisiva para o Rafael, não apenas no plano técnico, mas como experiência de troca com outros artistas e abertura de mundo. Ele voltou mais seguro, mais consciente da própria voz — e isso aparece com força nesta exposição, que mostra um Rafael mais amplo, com trabalhos diferentes reunidos em dois núcleos distintos. São quase duas exposições que se complementam e ajudam a entender melhor o artista. Abrir a programação de 2026 com o Rafael foi uma decisão muito consciente. Ele tem um público forte, seu trabalho tem ótima circulação e esse é o momento exato para fazermos sua segunda individual”, conclui Vilma Eid.
SERVIÇO
Exposição Rafael Pereira: A Cabeça de Zumbi
Quando: de 5 março a 11 de abril de 2026
Onde: Galeria Estação
Endereço: Rua Ferreira Araújo, 625 – Pinheiros, São Paulo
Vernissage: 05/3 (quinta-feira), a partir das 18h
Horários de funcionamento da galeria: segunda a sexta, das 11h às 19h; sábados, das 11h às 15h; não abre aos domingos.
Tel: 11 3813-7253
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