Pavão Misterioso faz entregas entre universos em novo livro

Livro transmídia une cordel, quadrinhos e crítica social

Capa do livro "Pavão Misterioso" / Divulgação
Capa do livro “Pavão Misterioso” / Divulgação

O que aconteceria se, no meio de uma jornada de trabalho, um entregador de aplicativo encontrasse uma cópia exata de si mesmo? Em “Pavão Misterioso Delivery Express”, novo livro transmídia da Avoante Editora, essa situação é apenas o começo de uma aventura que envolve universos paralelos, entidades-pássaro, uma organização secreta e uma nave em forma de pavão. Com texto de e desenhos de , ambos coautores, a obra reúne literatura e histórias em quadrinhos em uma narrativa que tem Fortaleza como palco e aproxima ficção fantástica, crítica social, cultura nordestina e humor.

No centro da história está Jeferson, entregador de aplicativo que tenta alcançar o primeiro lugar no ranking do EntregaFast. A recompensa é um aumento de 2% no faturamento. Para quem está tentando pagar as contas e melhorar as condições de atendimento da filha, Luana, a diferença é significativa. A menina está com uma gripe forte há mais de uma semana e precisa ser levada ao médico, mas Jeferson está determinado a cumprir suas entregas. “É bunda no banco e mão no acelerador”, pensa o personagem, que sabe que precisa correr contra o tempo.

A rotina de trabalho, porém, começa a sair do eixo quando Jeferson chega a um condomínio para fazer uma entrega. O prédio é antigo, o elevador parece saído de um filme de terror e, ao abrir a porta do apartamento, ele dá de cara com alguém exatamente igual a ele: outra versão de Jeferson. A explicação vem de um homem chamado Evan, responsável por uma organização que atua quando coisas de universos diferentes se misturam. O problema é que uma das entidades-pássaro está se movimentando naquele universo e há dois Jefersons onde deveria haver apenas um.

É nesse momento que surge o Pavão Misterioso, uma nave em forma de pavão utilizada para atravessar os universos e lidar com esses deslocamentos. A referência remete diretamente à cultura nordestina: a obra recupera elementos do cordel “O romance do Pavão Misterioso” e da música de , incorporando à ficção científica o tom fantástico e o linguajar regional que marcam a cultura cearense. Quando um ser de uma realidade aparece na outra, as entidades Capote e Caburé reagem, e as consequências podem ser enormes. “Ninguém aqui quer um Ragnarok com forró tocando no fundo, né?”, alerta Evan.

A aventura fantástica serve de ponto de partida para discutir uma experiência bastante concreta: a vida dos trabalhadores de aplicativos. Segundo Zé Wellington, o livro retrata entregadores que colocam suas vidas em risco diariamente nas ruas das grandes cidades enquanto são submetidos à exploração pelas grandes empresas de tecnologia, questionando também o discurso da meritocracia. A lógica do ranking resume esse conflito: mesmo diante de uma situação absurda envolvendo universos paralelos, Jeferson continua preocupado com suas entregas e com a possibilidade de perder a posição que pode aumentar seu faturamento.

A dimensão mais dramática aparece quando a cópia de Jeferson descobre que Luana está esperando o pai em casa. Enquanto Evan tenta impedir que Jeferson deixe o apartamento antes de descobrir quem pertence àquele universo, seu duplo decide ajudá-lo e revela que também tinha uma filha: “Leva a tua filha no médico agora… Cuida da tua Luana pra ela não morrer igual a minha!”. O momento coloca em primeiro plano uma das questões centrais da narrativa: diante da pressão pelo trabalho e pela sobrevivência, até onde é possível adiar aquilo que realmente importa?

A estrutura da obra também dialoga com a própria história, alternando literatura e quadrinhos para representar a passagem do protagonista entre universos, num efeito metalinguístico. O livro integra uma trajetória de Zé Wellington que inclui obras como “Cangaço Overdrive” e “Mata-mata: versão estendida”, enquanto Rafael Dantas trabalha com quadrinhos há mais de 15 anos, com projetos no Brasil e no exterior, incluindo títulos como “Doctor Who” e “The Phantom”. A parceria volta a colocar o Ceará no centro de uma narrativa que combina referências nordestinas, ficção científica, fantasia, humor e crítica social.

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