Mostra Farol acende a luz entre clássicos e futuros

CineSesc revisita memórias e aponta rumos do cinema

De 20 de março a 2 de abril, o CineSesc, por meio do Sesc São Paulo, apresenta a primeira edição da Mostra Farol, com 31 filmes que articulam a memória do cinema e as novas possibilidades da linguagem contemporânea. Inspirada na ideia do farol, que orienta embarcações em mar aberto, a mostra propõe uma travessia entre obras de cineastas consagrados, revisitadas como sementes de revoluções estéticas, e filmes recentes, ainda inéditos comercialmente no Brasil, que circularam por grandes festivais e sugerem novas rotas para o cinema. A programação combina sessões presenciais e online, formando um percurso que atravessa distopias moldadas pelo capitalismo, horror corporal, conflitos territoriais históricos e reflexões sobre memórias, culturas, identidades e subjetividades de gênero e sexualidade.

O eixo de Inéditos abre no dia 20/3 com Surda (2025), de Eva Libertad, vencedor em Berlim, que acompanha uma gravidez sob o olhar da acessibilidade, utilizando o aplicativo Conecta. Seguem distopias como Alpha, de Julia Ducournau, indicado ao Oscar, com o corpo em colapso pelo pânico da epidemia de HIV nos anos 1980, e O Senhor dos Mortos, de David Cronenberg, que imagina o luto transformado em voyeurismo tecnológico. O olhar histórico e geopolítico se aprofunda com A Sombra de Meu Pai, de Akinola Davies Jr., sobre a Nigéria militarizada, e Palestina 36, de Annemarie Jacir, que revisita a insurgência contra o domínio colonial britânico, tecendo um diálogo entre passado, memória e resistência.

A mostra também ilumina a experiência feminina e social brasileira com o documentário Aqui Não Entra a Luz, de Karol Maia, que investiga a arquitetura como herança escravocrata, e a ficção Dolores, de Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar, que acompanha três gerações de mulheres em busca de sobrevivência afetiva e econômica. As identidades em transformação aparecem em Queerpanorama, de Jun Li, sobre a solidão gay em Hong Kong, e O Riso e a Faca, de Pedro Pinho, que cruza resquícios coloniais e fricções culturais na África Ocidental. O interesse pela memória se repete em Diamantes, de Ferzan Özpetek, sobre uma fábrica de figurinos em Roma, no ensaio existencial Fuck the Polis, de Rita Azevedo Gomes, e em O Dia de Peter Hujar, de Ira Sachs, que captura a efervescência da Nova York dos anos 1970 através de uma conversa entre o fotógrafo e a escritora Linda Rosenkrantz.

No eixo Memória, Cronenberg retorna com seu longa de estreia, Calafrios (1975), que imagina uma pandemia em um condomínio canadense, e figura ao lado do clássico Robocop, de Paul Verhoeven, que antecipa debates sobre privatização e desumanização tecnológica. O resgate histórico inclui exibições em 35 mm de Gosto de Sangue, estreia dos irmãos Coen, marcada por reviravoltas na trajetória dos personagens, e Os Matadores, de Beto Brant, que dissecta a ambiguidade de um assassino de aluguel. A realidade urbana e a falta de perspectiva da juventude dialogam entre o Rio de 1955 em Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, e a Austin de Slacker, de Richard Linklater. O isolamento doméstico atravessa Dente Canino, de Yorgos Lanthimos, o registro seco de A Maçã, de Samira Makhmalbaf, e a melancolia de As Virgens Suicidas, de Sofia Coppola, enquanto o recorte encerra com estreias de Claire Denis, em Chocolate, e de Ava DuVernay, em I Will Follow.

A plataforma Sesc Digital amplia o alcance da Mostra Farol ao receber cinco obras inaugurais de grandes diretores e diretoras, entre elas Eu, Tu, Ele, Ela (1974), de Chantal Akerman, Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão (1980), de Pedro Almodóvar, Durval Discos (2002), de Anna Muylaert, Crítico (2008), de Kléber Mendonça Filho, e A Negação do Brasil (2000), de Joel Zito Araújo, todas disponíveis gratuitamente, sem necessidade de cadastro. A programação formativa inclui três aulas magnas de roteiro com Laís Bodanzky (Bicho de 7 Cabeças), Marcelo Caetano (Baby) e Gabriel Martins (Marte Um), além de uma sessão comentada dedicada à pioneira Alice Guy‑Blaché, hoje reconhecida como a primeira cineasta e roteirista de ficção, com contribuições para o close, efeitos visuais, sincronização de som e colorização de negativos, com a pesquisadora Vivian Malusá iluminando uma trajetória que por muito tempo foi silenciada na história do cinema.

Veja a lista completa dos filmes que integram a Mostra Farol em: sescsp.org.br/mostrafarol

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