Em romance psicológico, autora costura cotidiano e onírico para falar de memória e luto sem respostas

Hiromi Kawakami retorna com sua escrita onírica e sutilmente surrealista, capaz de alternar, sem ruído, cenas do cotidiano com a sensação de que algo escapa pelas frestas da realidade. Em Manazuru, essa atmosfera envolve o leitor desde o início, como uma névoa que não se dissipa: há uma vida em curso, mas também há um vazio que não para de chamar.
A história é narrada por Kei, uma mulher de meia-idade que carrega há anos o trauma do desaparecimento inexplicável do marido. Em Tóquio, ela vive com a mãe e a filha, dividida entre trabalho, cuidados familiares e a insistência de pensamentos que retornam ao mesmo ponto: onde ele está, por que sumiu, como seguir adiante sem qualquer fechamento.
Num gesto que nasce tanto do cansaço quanto da busca por ar, Kei decide embarcar num trem e desce em Manazuru, cidade costeira que parece escolhê-la tanto quanto é escolhida. Ali, a impressão de estar sendo seguida se intensifica, como se o lugar ampliasse o que ela tenta manter sob controle, empurrando-a para um estado de atenção permanente.
O que a acompanha, porém, não se deixa definir com facilidade — nem para ela. Aos poucos, Kei se aproxima dessa presença, quase como se criasse intimidade com uma figura espectral, e os diálogos que surgem flertam com a ambiguidade: acontecem de fato ou dentro da mente? É nessa zona incerta que a jornada ganha força, como um caminho para atravessar o próprio labirinto interior e fazer as pazes com fantasmas antigos.
Enquanto isso, Kawakami faz da escrita um gesto de costura: a narração em primeira pessoa avança como uma colcha de retalhos, entrecortada por pensamentos intrusivos, remendos de lembrança e lapsos que dizem muito sobre a dor. A autora também explora o conceito de kamikakushi 神隠し, o “desaparecimento misterioso” associado a uma causa divina, lembrando como o sobrenatural pode ser menos um consenso e mais um espelho íntimo de cada um.
Com um estilo poético que abraça o surreal sem perder a ternura, Manazuru se torna uma meditação sobre memória e ausência. Ao investigar relações entre amantes e familiares, o romance encontra beleza silenciosa em momentos sombrios e transforma a falta de respostas em matéria literária — precisa, delicada e profundamente humana.
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