Um romance em que o fantasma do marido e uma cidade costeira se misturam à memória e à solidão de uma mulher em Tóquio

A escritora japonesa Hiromi Kawakami está de volta com Manazuru, romance de tom onírico e surrealista, intercalado com cenas cotidianas de uma mulher em meio a um luto que não se encerra. Publicado no Brasil pela Editora Estação Liberdade, o livro tem como protagonista Kei, uma mulher de meia‑idade que mora em Tóquio com a mãe e a filha, após o desaparecimento misterioso do marido, ocorrido anos antes. Desde então, ela vive em suspensão: entre o trabalho diário, o cuidado familiar e as divagações sobre o paradeiro do ex‑marido, Kei se vê obrigada a confrontar um trauma que nunca foi de fato resolvido.
No calor de um momento de fuga, Kei decide embarcar num trem e, como se atraída por um lugar que já a pertencia em alguma dimensão, desce em Manazuru, uma cidade costeira onde a sensação de estar sendo seguida se intensifica. O que a acompanha é, a princípio, inidentificável — algo que oscila entre sombra, fragmento e presença espiritual —, mas com o tempo ela vai se aproximando dessa figura spectral, como se falasse com alguém que vive no além‑mundo. Muitas vezes, os diálogos parecem acontecer apenas dentro de sua mente, gerando uma narrativa em que interior e exterior se confundem, e a linha entre realidade, memória e sonho começa a se dissolver.
Além de seguir a perspectiva psicológica de Kei, o romance explora o conceito de kamikakushi (神隠し), um “desaparecimento misterioso” de causa divina, marcado pelo ideograma kami (神). Kawakami usa essa referência para discutir de forma poética e sutil o que se considera sobrenatural, mostrando que a interpretação dessas experiências é profundamente idiossincrática, variando entre senso comum e crença pessoal. Em Manazuru, a escrita funciona como uma espécie de colcha de retalhos: a narrativa em primeira pessoa é por vezes remendada por pensamentos intrusivos, interrupções de memória e lampejos de imagens que se sobrepõem ao presente, criando um efeito de fragmentação emocional muito próprio da obra.
O resultado é uma meditação sobre a memória, sobre o que significa viver com um vazio que nunca se preencheu e sobre a possibilidade de entrar em paz com os “fantasmas” do passado, sem necessariamente resolvê‑los de forma racional. Kawakami costura, com linguagem poética e ternura silenciosa, as relações entre amantes, pais e filhos, e entre uma mulher e o próprio corpo, que foi atravessado por perda, desejo e continuidade. Em Manazuru, a dor não se dissolve, mas é colocada ao lado de pequenos momentos de beleza, do cotidiano e da paisagem costeira, em um jogo de luz e sombra que define a essência da narrativa.
O lançamento do livro está previsto para 09 de março de 2026.
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