Comédia napolitana de Eduardo De Filippo ganha montagem gratuita no Teatro do SESI-SP

Com mais de quatro décadas de história, o Grupo TAPA se encontra pela primeira vez com o dramaturgo italiano Eduardo De Filippo (1900–1984) na comédia Filumena Marturano. A montagem, que aborda temas como família, maternidade, reconhecimento e relações de poder, chega aos palcos a partir de 16 de outubro, sexta-feira, às 20h, no Teatro do SESI-SP, no Centro Cultural FIESP, com direção de Eduardo Tolentino de Araujo e protagonismo de Sandra Corveloni e André Garolli. A temporada segue de quinta a sábado, às 20h, e aos domingos, às 19h, até 20 de dezembro, com ingressos gratuitos.
Escrita em 1946, a peça acompanha Filumena Marturano, uma ex-prostituta que finge estar morrendo para forçar seu parceiro de longa data, Domênico Soriano, a se casar com ela no leito de morte. Após a revelação da farsa, conflitos familiares e revelações sobre seus filhos testam os limites da dignidade e do afeto. O elenco conta ainda com Walter Breda, Maria do Carmo Soares, Daniel Volpi, Ivan Nobrega, Felipe Souza, Ruiz Angellus, Luísa Ferrari e Mari Teixeira, dando vida ao universo de relações que sustentam a trama.
O diretor Eduardo Tolentino de Araujo ressalta a atualidade da obra: “Filumena Marturano fala da família e das contradições da moral, das relações de classe e da condição da mulher”. A montagem foi traduzida por Tolentino em parceria com Maurizio De Simone diretamente do napolitano, buscando preservar as particularidades do texto original e explorar seus sentidos e sonoridades. Tolentino lembra que De Filippo é chamado de “Shakespeare napolitano” e que, apesar de sua importância, segue pouco conhecido no Brasil por razões que passam por direitos autorais e pelo período da ditadura militar.
A encenação parte de uma proposta naturalista, situando a ação em uma sala burguesa tradicional que tem como eixo uma grande mesa, onde se concentram os principais conflitos da obra. A passagem entre os três atos é marcada por escolhas cromáticas: o primeiro, ambientado à noite, usa preto, branco e cinza; o segundo, pela manhã, cores claras e estampas florais; e o terceiro, ao entardecer, tons pastel. Os figurinos acompanham a proposta visual, e a trilha sonora reúne antigas canções napolitanas executadas a cappella pelos próprios atores em momentos pontuais da encenação.
Tolentino também relaciona a peça à trajetória pessoal de Eduardo De Filippo, filho ilegítimo que faz na obra um acerto de contas com o pai, o consagrado dramaturgo Eduardo Scarpetta, resgatando o protagonismo roubado de sua mãe por uma sociedade machista. A Filumena do autor é “uma leoa, que luta com unhas e dentes pela legitimidade dos filhos”. A obra ganhou o mundo: foi adaptada ao cinema por Vittorio De Sica em Matrimônio à Italiana, com Sophia Loren e Marcello Mastroianni, e vivida no teatro por Joan Plowright e Judi Dench. No Brasil, a montagem do Teatro dos Quatro teve Yara Amaral como protagonista, sucedida por Nathalia Timberg.
A trajetória de Filumena Marturano chegou até o Vaticano: em julho de 1947, o elenco original foi recebido em audiência privada pelo Papa Pio XII, que pediu à atriz Titina De Filippo que recitasse a oração da protagonista à Madonna das Rosas. A história da peça também estabelece uma relação direta com São Paulo, cidade marcada pela presença italiana em sua formação cultural e social. A ambientação napolitana se conecta com uma metrópole que recebeu sucessivas levas de imigrantes italianos desde o final do século 19, especialmente na Bela Vista. A montagem amplia esse diálogo com a chegada do TAPA, pela primeira vez, ao Teatro do SESI-SP, na Avenida Paulista.
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