Exposição no Sesc revela os impactos invisíveis pela IA

Mostra internacional reúne 70 obras e investiga tecnologia, poder e trabalho

A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma tecnologia abstrata, baseada em algoritmos, dados e sistemas aparentemente invisíveis. A exposição internacional “O Mundo Através da IA (Le Monde selon l’IA)”, em cartaz no Sesc 24 de Maio, em São Paulo, desloca essa percepção ao revelar as estruturas materiais, humanas, políticas e ambientais que sustentam seu funcionamento. Com curadoria do pesquisador Antonio Somaini, professor da Sorbonne e de Harvard, a mostra reúne cerca de 70 obras de 29 artistas de 15 países, distribuídas por oito núcleos temáticos. Concebido pelo centro de arte parisiense Jeu de Paume, o projeto permanece na capital paulista até 29 de novembro, com entrada gratuita.

Créditos: ”Botannica Tirannica” de Giselle Beiguelman. Foto: Julia Thompson

Ao investigar o desenvolvimento da inteligência artificial desde a criação do termo por John McCarthy, em 1955, a exposição evita uma narrativa baseada apenas na evolução tecnológica. O percurso coloca em primeiro plano questões como exploração de recursos naturais, consumo energético, trabalho humano invisibilizado, colonialismo, vigilância e sistemas de classificação. Uma das obras centrais é “Calculando Impérios: uma Genealogia da Tecnologia e do Poder desde 1500”, de Kate Crawford e Vladan Joler. Com 12 metros de extensão, a instalação constrói uma cartografia das relações entre tecnologia, conhecimento, exploração e diferentes formas históricas de poder, demonstrando como determinadas estruturas do passado encontram novas configurações no ambiente digital.

O trabalho humano escondido por trás da automação também ocupa posição relevante na mostra. “Acapulco”, de Bruno Moreschi e Pedro Gallego, investiga atividades realizadas por pessoas responsáveis por tarefas como classificação de imagens e moderação de conteúdos, fundamentais para o treinamento e funcionamento de sistemas automatizados. Entre os brasileiros, Giselle Beiguelman apresenta “Beleza Corrosiva”, sobre os impactos ambientais provocados pelo descarte tecnológico, e “Botannica Tirannica”, que aproxima sistemas históricos de classificação botânica das estruturas classificatórias reproduzidas por algoritmos. Mayara Ferrão, por sua vez, utiliza inteligência artificial em “Álbum de Desesquecimentos” para construir simbolicamente imagens relacionadas às experiências íntimas de mulheres negras e originárias que permaneceram ausentes dos registros visuais do período colonial.

A edição paulistana amplia a discussão internacional por meio de sete cápsulas do tempo produzidas especialmente para o Brasil. Desenvolvidas por uma equipe formada por Giselle Beiguelman, Bruno Moreschi, Gabriel Pereira e Mariana Tamashiro, em diálogo com Somaini, as instalações estabelecem conexões entre a inteligência artificial contemporânea e diferentes momentos da história brasileira. Documentos relacionados à eugenia, antropologia criminal e classificação de corpos aparecem ao lado de referências à arte computacional brasileira, ao movimento Poema/Processo, ao pensamento de Vilém Flusser, à taxonomia botânica colonial, ao pixo paulistano e às experiências fotográficas pioneiras de Hercule Florence. O conjunto sugere que compreender a IA exige também investigar as estruturas culturais e históricas responsáveis por organizar aquilo que uma sociedade decide classificar, reconhecer ou excluir.

Com artistas de países como Brasil, Alemanha, Argentina, França, Senegal, Estados Unidos, Arábia Saudita, Espanha e Polônia, “O Mundo Através da IA” transforma a inteligência artificial em objeto de reflexão cultural e política, indo além das discussões sobre eficiência, inovação e automação. Ao revelar trabalhadores, recursos naturais, arquivos históricos e relações de poder escondidos sob a aparente imaterialidade dos sistemas digitais, a exposição convida o visitante a observar criticamente não apenas aquilo que a tecnologia consegue produzir, mas também as estruturas que tornam essa produção possível. A mostra pode ser visitada gratuitamente de terça a sábado, das 9h às 21h, e aos domingos e feriados, das 9h às 18h, no Sesc 24 de Maio, no centro de São Paulo.

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