Exposição revela ações de arte e resistência durante a ditadura chilena

os Derechos Humanos, Archivo CADA. Doação de Lotty Rosenfeld e Diamela Eltit, 2016, Santiago
O MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand apresenta, de 2 de abril a 2 de agosto, a exposição Colectivo Acciones de Arte: democracia radical, com curadoria de André Mesquita. A mostra reúne fotografias, filmes, documentos, publicações, desenhos e cartazes de oito ações realizadas pelo Colectivo Acciones de Arte (CADA) entre 1979 e 1985, grande parte delas em espaços públicos da cidade de Santiago, muitas das intervenções rápidas e, em diversos casos, anônimas, como estratégia para contornar a censura e a vigilância da ditadura chilena. O conjunto de materiais evidencia como a arte pode operar como prática de resistência, denúncia e participação coletiva.
Fundado em Santiago em 1979, o CADA foi formado por Lotty Rosenfeld (1943–2020), Juan Castillo (1952–2025), Diamela Eltit (1949), Raúl Zurita (1950) e Fernando Balcells (1950), com modificações ao longo do tempo, e desenvolveu ações que tensionaram as relações entre arte e política em um contexto de repressão violenta, agravamento de desigualdades sociais e econômicas e justificativa ideológica do regime. O coletivo propunha que a cidade inteira fosse encarada como um espaço de enunciação, e não apenas museus e galerias, invertendo o lugar da arte na vida pública.
A ação NO+ (1983) é a mais emblemática do CADA e ocupa centro de destaque na exposição. O coletivo espalhou pela paisagem urbana o texto aberto NO+, deixando em branco a continuação, para que cidadãos e movimentos sociais o completassem de acordo com suas demandas. Surgiram assim frases como NO+ dictadura, NO+ muerte e NO+ hambre, que se transformaram em slogans de luta, antecipando simbolicamente o plebiscito de 1988, que marcou o fim da ditadura no Chile. O curador André Mesquita ressalta que o slogan se consolidou como expressão de militância na América Latina, reaparecendo em outras intervenções urbanas e mobilizações, inclusive décadas depois, como em um protesto de 2009 por recursos públicos para a construção de um hospital, registrado em jornais e mantendo o poder de convocação do símbolo.
Além de NO+, a exposição traz registros de ações como ¡Ay Sudamérica! (1981), em que seis aviões lançaram cerca de 400 mil panfletos sobre bairros de Santiago, com a mensagem de que “todas as pessoas são artistas”. As imagens da operação evocam a memória do bombardeio ao Palácio de La Moneda, em 11 de setembro de 1973, subvertendo a ideia de aviação como instrumento de violência e transformando-a em veículo de mensagem artística e política. Já em Inversión de escena (1979), o CADA usou caminhões de leite e um grande pano branco estendido na entrada do Museo Nacional de Bellas Artes para criar uma cena que remetia tanto à carência alimentar quanto à presença dos tanques de guerra, evidenciando como objetos cotidianos assumem, sob o regime, novas conotações políticas. Ao bloquear o acesso ao museu, o coletivo indicava que a arte deveria circular pelas ruas, participando diretamente da vida das pessoas e não apenas de instituições.
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