Sessão em 27 de fevereiro resgata o vínculo de Menotti del Picchia com os filmes mudo e sonoro

A Cinemateca Brasileira realiza, em 27 de fevereiro, às 19h30, uma sessão especial que celebra o vínculo de Menotti del Picchia (1892‑1988) com o cinema, único modernista que se lançou na produção cinematográfica. O encontro integra o Programa Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, coordenado por Carlos Augusto Calil, que promove exibições mensais de filmes pouco circulados ou restaurados pela instituição, sempre acompanhadas de debates. O público poderá conferir uma nova cópia digital do curta‑metragem Menotti (1975), de Elie Politi, trechos do centenário Piracicaba (1922), restaurado em 2025, e o longa mudo sonorizado Alvorada de Glória (1931), com trilha reconstituída pela equipe da Cinemateca.
Os ingressos são gratuitos e serão distribuídos uma hora antes da sessão. Após as exibições, haverá debate com Eduardo Morettin, Elie Politi e Miguel de Almeida, mediado por Carlos Augusto Calil, transmitido ao vivo pelo YouTube da Cinemateca Brasileira, com tradução para Libras. O encontro resgata um capítulo pouco destacado da Semana de Arte Moderna de 1922, momento em que muitos artistas se inspiravam no cinema, mas poucos – entre eles apenas Menotti – mergulharam na prática de filmar.
Menotti del Picchia atuou como argumentista, produtor e supervisor artístico, ao lado do irmão José, cinegrafista, e dos sobrinhos Victor e Luís, criando mais de uma produtora para longas‑metragens em gêneros variados: comédias, épicos patrióticos, filmes “naturais” e até obras de caráter erótico. Modernista de primeira hora, ele usou sua coluna Hélios no Correio Paulistano para defender a Semana de Arte Moderna, agregando figuras como Oswald de Andrade e Mário de Andrade, que, embora inspirados pelo cinema, nunca o praticaram diretamente.
Durante a sessão, será exibido o curta Menotti (1975), de Elie Politi, patrocinado pela Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo no âmbito das comemorações do cinquentenário da Semana de Arte Moderna. O filme, há tempos fora de circulação devido à perda de negativos e cópias originais, foi digitalizado especialmente para o evento a partir de uma cópia 16 mm sobrevivente, destacando o papel de Menotti como ponte entre a vanguarda literária e o cinema comercial. Em 1922, Menotti e o amigo Armando Pamplona criaram a Independencia Omnia Film, voltada aos contratos governamentais de celebração do Centenário da Independência, beneficiando‑se de relações privilegiadas com autoridades ligadas ao Partido Republicano Paulista (PRP).

Trechos de Piracicaba (1922) serão exibidos para ilustrar o que viria a ser chamado de “cavação”: a forma de financiar filmes institucionais a partir de verba pública ou de donos de terras e indústrias, que, para propaganda de cidades ou fazendas, financiavam documentários de exaltação local. Restaurado em 2025 por iniciativa de Thiago Altafini, com apoio da Cinemateca Brasileira e da Secretaria de Cultura de Piracicaba, o filme se integra a um gênero que, nas palavras de historiadores do cinema, era a “quinta‑essência da cavação”.
A terceira obra do programa é Alvorada de Glória (1931), epopéia patriótica sem diálogos, em que a trilha é reconstituída pela equipe da Cinemateca por meio de músicas e ruídos reproduzidos em discos de 78 RPM. O longa, dirigido por Victor del Picchia, com supervisão e argumento de Menotti, recria o contexto da Revolução de 1924, quando tenentes rebeldes ocuparam São Paulo por cerca de um mês antes de se unirem à Coluna Prestes, em fuga pelo interior do estado. A narrativa acompanha um jovem burguês que adere aos revoltosos, segue‑os em exílio e retorna ao lar após a vitória da Revolução de 1930, simultaneamente celebrando e justificando a ascensão do novo regime.
O interesse principal de Alvorada de Glória são as imagens autênticas da revolta de 1924, filmadas por José del Picchia para Trem da Morte, e reaproveitadas integralmente na produção de 1931. O filme, em razão disso, ganha valor adicional como documento de época, além de veículo de propaganda favorável ao novo governo surgido do golpe de 1930. Menotti, até então ligado ao poder paulista que caiu em 1930, usou a produção do filme para se reposicionar politicamente junto às novas autoridades, como o general Gois Monteiro. O envolvimento de Menotti com o cinema durou cerca de dez anos (1922‑1931), período que ele mesmo descreveu como suficiente para garantir recursos financeiros para a compra de uma casa, mas que, para a história do cinema brasileiro, representa um experimento raro: um modernista que não apenas falava de cinema, mas criava material audiovisual.
CINEMATECA BRASILEIRA
Largo Senador Raul Cardoso, 207 – Vila Mariana
Horário de funcionamento
Espaços públicos: de segunda a segunda, das 08 às 18h
Salas de cinema: conforme a grade de programação.
Biblioteca: de segunda a sexta, das 10h às 17h, exceto feriados
Sala Grande Otelo (210 lugares + 04 assentos para cadeirantes)
Sala Oscarito (104 lugares)
Área externa (300 lugares)
Retirada de ingresso 1h antes do início da sessão
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