Belchior completaria 80 anos com obra em plena redescoberta

Documentário, livros e trilogia audiovisual celebram o compositor cearense

Belchior / Divulgação
Belchior / Divulgação

No Brasil, a morte costuma tirar muitos artistas de circulação. Alguns são esquecidos pelo público bem antes disso. Com , aconteceu quase o contrário. O cantor e compositor cearense, morto em 2017, aos 70 anos, atravessa um período de renovado interesse por sua obra e sua vida, marcado por discos, espetáculos, livros e produções audiovisuais. Nesta segunda-feira, quando completaria 80 anos, Belchior será homenageado com a exibição de um novo documentário na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o lançamento de dois livros, um deles no Rio de Janeiro.

O mais imediato desses lançamentos é “Alucinação”, documentário dirigido por Renato Terra, Marcos Caetano e Leo Caetano, que terá sessão às 18h no CineSesc, na capital paulista. O filme, que passou pelo Festival do Rio, toma como ponto de partida o disco homônimo lançado em 1976, que também completa 50 anos. É uma obra que dispensa a estrutura convencional das biografias musicais. Em vez de reconstituir a infância, o início da carreira e a consagração de Belchior, os diretores decidiram tocar, na íntegra e na ordem original, as dez faixas do álbum, acompanhadas por imagens de arquivo do Brasil dos anos 1970. O resultado é uma espécie de retrato de época, em que as canções dialogam com cenas de pobreza, migração, desigualdade social, manifestações culturais e transformações de comportamento durante a ditadura militar. O disco funciona como roteiro e, em certa medida, como narrador.

“Eu comecei a ouvir esse disco obsessivamente e fui percebendo que o roteiro já estava pronto dentro desse disco”, afirma Renato Terra, também diretor de “Uma Noite em 67”. Para ele, “Alucinação” registra o confronto entre uma juventude que buscava transformar o país e as forças conservadoras que resistiam às mudanças. Em “Apenas um Rapaz Latino-Americano”, Belchior se apresenta. “Velha Roupa Colorida” anuncia a necessidade de mudança. “Como Nossos Pais” constata a derrota de parte das utopias juvenis. “Sujeito de Sorte” recupera o impulso de resistência.

A montagem combina imagens de programas como “Globo Repórter” e “MPB Especial” com trechos de filmes brasileiros, como “Macunaíma” e “Tudo Bem”, de , e registros domésticos em super-8. A pesquisa consumiu seis anos e envolveu centenas de filmes e documentários. O interesse dos realizadores estava menos nas grandes personalidades do período do que nas pessoas comuns, que aparecem enfrentando o aumento do custo de vida, a concentração de renda e a precariedade das grandes cidades. “A gente queria imagens verdadeiras, de gente de verdade, o que era o Brasil”, afirma Marcos Caetano.

A sessão no CineSesc será acompanhada pelo lançamento de outro “Alucinação”, desta vez um livro que Terra escreveu com o músico e pesquisador Rodrigo Salgado, publicado pela Cobogó na coleção “O Livro do Disco”. Enquanto o filme procura compreender o Brasil por meio das canções, o livro se aprofunda na construção musical e literária do álbum, examinando arranjos, referências e citações presentes nas letras, entre elas os diálogos com os Beatles e com o escritor Edgar Allan Poe, em “Velha Roupa Colorida”.

No mesmo dia, mas no Rio de Janeiro, os jornalistas Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti lançam a segunda edição de “Viver é Melhor que Sonhar — Os Últimos Caminhos de Belchior”, publicado originalmente em 2021. O livro acompanha o período mais enigmático da trajetória do compositor, quando ele abandonou progressivamente os palcos e passou a circular pelo Uruguai e pelo sul do Brasil, hospedando-se em casas de admiradores e conhecidos, quase sempre acompanhado de Edna Prometheu, sua companheira. Para reconstruir essa história, os autores percorreram mais de 10 mil quilômetros e entrevistaram mais de 150 pessoas. A principal novidade é um posfácio sobre os acontecimentos posteriores à primeira edição, entre eles uma informação sobre a companheira, cujo paradeiro se tornou desconhecido depois da morte do cantor. Segundo Fuscaldo, ela teria sido reconhecida por integrantes de um bloco de Carnaval de São Paulo em 2025 e voltado a aparecer no Carnaval deste ano. A edição, uma parceria entre Garota FM Books e Sonora Editora, também ganhou uma orelha escrita por , cantora que ajudou a renovar o interesse pela obra de Belchior. Depois de lançar “Ana Cañas Canta Belchior”, em 2021, ela percorreu o país com um espetáculo dedicado ao compositor, com 180 apresentações.

Outro responsável por aproximar Belchior de uma nova geração foi , que utilizou um trecho da gravação original de “Sujeito de Sorte” em “AmarElo”, lançada em 2019 com e . O verso “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” ganhou nova circulação, muito além do público que conhecia o disco de 1976.

A redescoberta do músico também chegou à ficção televisiva. Em agosto, o Canal Brasil estreou “Alucinação”, minissérie de quatro episódios dirigida por Eduardo Albergaria e disponível no Globoplay. Apesar do título idêntico, a produção não tem relação com o documentário de Renato Terra. É uma dramatização da juventude de Belchior, inspirada principalmente na biografia “Belchior — Apenas um Rapaz Latino-Americano”, do jornalista Jotabê Medeiros. interpreta o cantor jovem. “A série termina quando ele vai lançar o ‘Alucinação’. Quando ele efetivamente deixa de ser o menino de Sobral e vira o Belchior que a gente conhece”, conta Albergaria, que também realizou “Nosso Sonho”, cinebiografia de Claudinho e Buchecha.

Desse processo nasceu um segundo trabalho de ficção, também chamado “Viver é Melhor que Sonhar”, que terá estreia em 13 de novembro, no encerramento do Cine Ceará, em Fortaleza. A chegada ao circuito comercial está marcada para 3 de dezembro. O longa se concentra nos últimos dez anos da vida do compositor, interpretado por , com no papel de Edna. “O filme é um road movie pela América Latina que foca objetivamente nesse processo de autoexílio do Belchior”, afirma Albergaria.

A investigação ainda dará origem a um terceiro projeto, desta vez documental. Albergaria afirma ter gravado 78 depoimentos no Ceará, no Uruguai e no Rio Grande do Sul, reunindo pessoas que conheceram Belchior desde a juventude até seus últimos anos. O material deverá confrontar a maneira como o desaparecimento foi apresentado pela imprensa com os relatos de quem conviveu com o músico naquele período. Depois de mais de uma década envolvido com o personagem, o diretor chegou a uma interpretação particular sobre a decisão de Belchior de abandonar a carreira: “Ele não só cantou sobre isso a vida inteira. No final da vida ele fez o que ele cantou.”

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