Galeria Estação desafia fronteiras entre arte e linguagem

“Uma língua nova” reúne 60 obras de sete artistas e propõe olhar além de diagnósticos

A Galeria Estação, em São Paulo, abre ao público no dia 25 de agosto a exposição “Uma língua nova”, coletiva que reúne cerca de 60 obras de sete artistas brasileiros e europeus: Arnold Schmidt, Aurelino dos Santos, Clovis Aparecido dos Santos, Enio Sérgio, Esther Morgannah, Josef Hofer e Ranchinho. Com curadoria de José Augusto Ribeiro, a mostra segue até 26 de setembro e parte das trajetórias de criadores historicamente associados aos campos da saúde mental e da deficiência intelectual para propor outra perspectiva: observar cada produção por sua potência estética, autonomia poética e capacidade de construir linguagens próprias, evitando reduzir as obras a diagnósticos ou biografias.

Crédito : João Liberato

O título foi inspirado no conto “No Quadrado de Joana”, de Maura Lopes Cançado, escritora cuja trajetória ocupa lugar importante nas discussões sobre literatura, sofrimento psíquico e luta antimanicomial. Na proposta curatorial, a expressão “uma língua nova” representa justamente a invenção de formas de expressão que escapam aos códigos consolidados pela história da arte, pela medicina e pela cultura. Em vez de procurar uma característica capaz de uniformizar os sete artistas, a exposição evidencia diferenças de origem, contexto e processo criativo, reconhecendo em cada trabalho uma maneira particular de perceber, organizar e representar o mundo.

O percurso revela essa diversidade em pinturas, desenhos e esculturas. O visitante encontra o universo simbólico de Clovis Aparecido dos Santos, as construções visuais de Arnold Schmidt, 14 pinturas de Ranchinho, a pesquisa formal de Josef Hofer, as esculturas de Esther Morgannah, marcadas por influências astecas e referências marítimas, e as abstrações multicoloridas de Enio Sérgio. As diferenças entre os artistas são parte fundamental da exposição: há trajetórias marcadas por períodos de institucionalização psiquiátrica e outras desenvolvidas em ambientes familiares, assim como criadores autodidatas e nomes que estabeleceram relações com museus, ateliês e centros de pesquisa.

A exposição estabelece ainda um diálogo com a história da psiquiatria brasileira e com o legado de pesquisadores como Osório César e Nise da Silveira, que contribuíram para reconhecer a produção artística como forma legítima de expressão. A colaboração com o Museu de Imagens do Inconsciente permitiu incorporar à mostra obras de Esther Morgannah e Enio Sérgio apresentadas pela primeira vez em São Paulo. O objetivo, porém, não é transformar a saúde mental no tema central da coletiva, mas deslocar o olhar: antes de procurar nas obras sinais de um diagnóstico, o público é convidado a se relacionar com elas como experiências estéticas singulares.

A abertura acontece em 25 de agosto, às 18h, e ganha um desdobramento especial às 20h, quando José Augusto Ribeiro participa de um bate-papo com o psiquiatra Dr. José Gallucci Neto e o músico, museólogo e pesquisador Eurípedes Junior, profissional ligado por décadas ao Museu de Imagens do Inconsciente e à trajetória de Nise da Silveira. Ao colocar lado a lado artistas de diferentes países, gerações e percursos, “Uma língua nova” amplia a discussão sobre quem pode ocupar o circuito artístico e propõe uma experiência na qual classificação dá lugar à criação — e a diferença deixa de funcionar como limite para se tornar parte da própria linguagem.

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