Aos 55 anos, Débora Simas supera marca feminina após 168 horas sobre uma esteira
Foram 168 horas de corrida, poucas horas de sono, dores, mudanças de estratégia e 866,21 quilômetros percorridos até que Débora Simas transformasse uma tentativa iniciada anos atrás em um recorde mundial. Aos 55 anos, a ultramaratonista catarinense estabeleceu neste domingo (9) a nova melhor marca feminina de corrida em esteira durante sete dias, no Beiramar Shopping, em Florianópolis. Às 9h14, Débora ultrapassou os 846,16 quilômetros registrados pela neozelandesa Emma Timmis em 2024 e, ao completar uma semana de desafio, chegou à distância final de 866,21 quilômetros. O resultado representa também uma espécie de reencontro da atleta com a própria história: em 2019, no mesmo local, ela havia percorrido 800,61 quilômetros, conquistando os recordes brasileiro e sul-americano, mas ainda distante da então sonhada marca mundial.

A conquista foi construída a partir de dois anos de preparação específica, com uma rotina intensificada nos seis meses anteriores ao desafio e conciliada com dois empregos. Débora trabalha durante o dia em uma agropecuária e, à noite, em uma lanchonete. Sua relação com as corridas começou há 22 anos, quando trabalhava justamente em uma lanchonete dentro de uma academia e decidiu participar de uma prova de nove quilômetros. A aptidão para resistência logo apareceu: em sua primeira maratona oficial, completou os 42 quilômetros em 3h27 e subiu ao pódio. Desde então, acumulou cerca de 300 competições, conquistou três vezes a Brasil 135 Ultramarathon e tornou-se a primeira brasileira a completar a 1000K Brasil, percorrendo mil quilômetros em dez dias.
Durante a tentativa de recorde, o Beiramar Shopping se tornou pista, casa e centro de recuperação da atleta. Débora fazia boa parte da alimentação e hidratação enquanto permanecia em movimento e dormia por períodos reduzidos, que chegaram a aproximadamente três horas nas primeiras noites. O esforço acumulado provocou dores musculares e articulares, câimbras e contraturas, exigindo acompanhamento constante e alterações no planejamento. Um dos episódios mais delicados ocorreu na quarta-feira à noite, quando uma câimbra forte fez a ultramaratonista chegar perto de perder os sentidos. A operação envolveu cerca de 110 profissionais, incluindo médicos, fisioterapeutas, enfermeira, nutricionista, treinador, técnicos, árbitros, voluntários e equipes de apoio, que trabalharam em sistema de revezamento durante as 24 horas do dia.
A dimensão coletiva se tornou parte importante de uma conquista que começou como objetivo pessoal. Durante os sete dias, visitantes acompanharam gratuitamente a evolução da quilometragem e, em determinados momentos, puderam correr nas esteiras posicionadas ao lado de Débora. Parte do público retornou ao shopping ao longo da semana para acompanhar o desafio, enquanto mensagens de incentivo chegavam à equipe. A iniciativa também arrecadou ração destinada a entidades de proteção animal. Quando as 168 horas chegaram ao fim e o marcador registrou 866,21 quilômetros, Débora não apenas acrescentou mais um resultado a uma trajetória construída em provas extremas: sete anos depois de chegar perto do objetivo no mesmo lugar, voltou ao ponto de partida e finalmente deixou a esteira como nova recordista mundial feminina da modalidade.
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