Espaço preserva obras do artista pernambucano ligado ao Teatro Oficina de SP

O sobrado da Bela Vista que guarda décadas de memória do Teatro Oficina acaba de anunciar um novo capítulo. A Casa de Acervo Oficina, inaugurada em 2023 para preservar figurinos, adereços e objetos de cena da histórica companhia fundada por José Celso Martinez Corrêa e outros nomes fundamentais do teatro brasileiro, inicia o restauro de um conjunto de pinturas de Surubim Feliciano da Paixão, artista nascido em 1940 no agreste pernambucano e morto em São Paulo em 1991.
Zelador, cirandeiro, músico e artista visual, Surubim chegou ao Oficina em 1979, após o retorno de integrantes da companhia do exílio. Ao longo de 12 anos, integrou grupos musicais, o circo da trupe e foi peça-chave no processo de tombamento do Teatro Oficina. É também autor de Tupi or not Tupi, uma das músicas mais emblemáticas da versão cinematográfica de O Rei da Vela, que virou disco em 1985 e se tornou um dos hinos da companhia. Os quadros a serem restaurados — entre eles o célebre O Fantástico Cavalo Azul — foram pintados sobre suportes improvisados, como tampos de madeira, ao longo da década de 1980, e sintetizam o espírito livre e a simbiose entre palco e imaginário popular que marcaram aquela fase do Oficina.
O projeto de conservação é coordenado pela restauradora Valéria de Mendonça, que atuou por 14 anos na Pinacoteca do Estado de São Paulo e é referência em pintura de cavalete. Os trabalhos tiveram início em 23 de abril de 2026, Dia de São Jorge, com uma equipe coletiva que se reúne às segundas e quintas-feiras ao longo de três meses. “Esse restauro não foi um trabalho encomendado — foi um encontro”, conta o ator Victor Rosa, coordenador geral da Casa de Acervo Oficina.
A iniciativa surge como projeto de continuidade após o encerramento do aporte do ProAC, que ao longo de 12 meses transformou o espaço de um “depósito” em uma reserva técnica organizada. Nesse período, mais de 3.500 peças foram catalogadas e mais de 2 mil itens foram digitalizados na plataforma Tainacan, disponíveis gratuitamente para pesquisadores, escolas de moda e artistas. A sustentabilidade atual da Casa depende de locações, visitas guiadas, brechó e uma porcentagem da bilheteria de espetáculos do Oficina que utilizem peças do acervo.
Mesmo com os avanços recentes, a manutenção do espaço ainda é frágil — a companhia não conta com patrocínio regular desde 2016. A Casa de Acervo Oficina aceita doações pela chave Pix [email protected] e pode ser acompanhada no Instagram @casadeacervo.oficina.
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