Zuca, de Fernanda Hamann, expõe racismo e xenofobia

Romance premiado na Europa acompanha brasileira racista que se torna alvo de preconceito em Lisboa

Divulgação

Zuca (Editora Urutau, 184 págs.), da escritora e psicanalista carioca Fernanda Hamann, parte de um paradoxo contemporâneo para construir um romance denso e desconfortável. Bárbara Weissmann, advogada carioca branca de classe média, decide migrar para Lisboa após ser processada por racismo no Brasil — e descobre, do outro lado do Atlântico, que sua condição de brasileira a coloca sob o olhar desconfiado da sociedade local. A obra recebeu o prêmio de melhor livro da Mostra Internacional de Livros da GallerySPT, em Madri, e foi viabilizada pela Bolsa Criar Lusofonia, do Centro Nacional de Cultura / Ministério da Cultura de Portugal.

A narrativa, estruturada como um diário de imigrante em primeira pessoa, acompanha o processo de “europeização” de Bárbara: ela alisa obsessivamente o cabelo, usa filtro solar para manter a pele alva e rasura palavras típicas do português brasileiro para substituí-las por expressões lusitanas — uma tentativa simbólica de apagar traços da própria identidade. Mesmo assim, continua sendo chamada de zuca ou brasuca, termos pejorativos usados em Portugal para designar imigrantes brasileiros. O recurso gráfico das rasuras no texto é uma das invenções formais mais marcantes do romance, representando literariamente a experiência cotidiana de autocensura identitária.

Para tensionar o racismo não reconhecido pela protagonista, Fernanda Hamann recorre a um dispositivo psicanalítico: os sonhos. É nesse espaço que culpas mal elaboradas, preconceitos estruturados na genealogia familiar e questões coloniais emergem com força. A autora descreve o fenômeno vivido por Bárbara não como “colonização reversa”, mas como retorno do reprimido — conceito freudiano que articula o caráter estrutural e histórico das dinâmicas de exclusão. O texto de orelha, assinado por Daniel Galera, destaca que o livro “busca o oposto do maniqueísmo didático, oferecendo uma trama construída com ambiguidades e sutilezas”.

Fernanda Hamann tem pós-doutorado em Teoria Literária pela USP, mais de dez livros publicados e é colunista do jornal português Público. A agenda de divulgação de Zuca inclui sessão de autógrafos na Feira do Livro de São Paulo no dia 30 de maio, participação na Flip em julho, na Bienal do Livro de São Paulo em setembro e presença no estande da Editora Urutau na Feira do Livro de Lisboa. Portugal é hoje o segundo principal destino de brasileiros no exterior, com mais de 500 mil pessoas — e é exatamente esse contexto real e tenso que Zuca transforma em literatura.

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