Gustavo Ortiz lança “Peixe pescado” single sobre resiliência

Segundo faixa do álbum de estreia Arrasto amplia campo de luta e sonoridade

Foto: Diego Mar

Gustavo Ortiz apresenta “Peixe pescado”, segundo single de seu álbum de estreia, Arrasto. Enquanto “Afoxé do Nego Véio” funcionou como introdução ao projeto, esta nova faixa amplia o campo temático e sonoro do disco, mergulhando diretamente na vida do trabalhador e nas estruturas de exploração que atravessam o cotidiano, propondo a construção coletiva como forma de resistência. A canção surge como um salto de intensidade política e emocional na trajetória do artista, conectando memória pessoal, militância e pesquisa musical.

Se no primeiro lançamento a resiliência se manifestava pela celebração e pela dança, em “Peixe pescado” ela ganha contornos de enfrentamento mais explícito. A letra parte da imagem do trabalhador como “peixe que já nasce pescado” para abordar a ideia de que, antes de qualquer escolha, ele já está preso em redes de exploração. A metáfora se expande nas estrofes finais, em que o coro, simbolizando cardume e revoada, aponta para a força do coletivo e para a possibilidade de autonomia reconquistada. A própria estrutura de clímax, com camadas se somando na última parte, reforça o entendimento de que a saída da armadilha exige movimento e escuta em grupo.

A composição nasceu de uma investigação de Gustavo sobre o partido‑alto de João Bosco, que o levou a desenvolver uma progressão harmônica no violão; do processo, nasceram melodia e arranjo, que, ao longo de alguns dias, se tornaram “Peixe pescado”. O tema resgata discussões já presentes em “José, João”, do EP Desafogo, e dialoga diretamente com a trajetória familiar do artista, filho e neto de trabalhadores rurais, caminhoneiro, professora da rede pública e empregadas domésticas. Essa proximidade com a experiência de classe faz da canção um relato atravessado – e não apenas observado – pelas estruturas que denuncia.

O título remete à pesca de arrasto, prática predatória que privilegia o lucro em detrimento da vida, e a metáfora se espalha pela letra para nomear as “redes” que capturam o trabalhador antes mesmo de ele conseguir se posicionar. Simultaneamente, o conceito de arrasto abre espaço para forças de resistência que precisam ser criadas de forma coletiva, evocando uma rede oposta àquela que aprisiona. A sonoridade acompanha essa densidade: a bateria de Biel Basile, em registro grave, sustenta uma base tensa; o baixo de Marcelo Cabral acompanha o andamento e ganha timbres saturados nas estrofes finais; as guitarras e o cavaquinho de Rodrigo Campos ampliam o tom sombrio e incisivo, enquanto o violão, instrumento inicial da composição, ancora a faixa nas cordas graves. O coro dá ainda mais imponência ao caráter coletivo da narrativa.

“Peixe pescado” encerra o ciclo de singles antes do lançamento completo de Arrasto e sintetiza três eixos centrais na obra de Gustavo Ortiz: exploração, revolta e coletivo. A faixa dialoga com a tradição das canções de protesto ligadas a Chico Buarque e João Bosco, ao mesmo tempo em que se aproxima de abordagens contemporâneas de artistas como Juçara Marçal, Ava Rocha e Douglas Germano. Também cruza para o universo do rock e do rap, encontrando aproximações com nomes como Titãs, Criolo, Emicida e Marcelo D2, construindo um ponto de encontro entre crítica política, pesquisa sonora e música brasileira de cunho social.

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