MASP exibe Claudia Alarcón & Silät e celebra tecelagem

Mostra reúne 25 trabalhos com fios de chaguar de mais de cem tecedeiras do povo Wichí, em diálogo entre ancestralidade e contemporaneidade

Divulgação

O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand inaugura “Claudia Alarcón & Silät: viver tecendo”, exposição que marca a estreia da artista argentina Claudia Alarcón (n. 1989, La Puntana) e do coletivo Silät em um museu brasileiro. Reunindo 25 trabalhos, a mostra mapeia um universo de tecelagem construída com fios de chaguar, uma bromélia nativa do semiárido do Gran Chaco, maior bioma da América Latina depois da Amazônia, que abrange regiões norte e nordeste da Argentina e chega ao Paraguai. Com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP, e Laura Cosendey, curadora assistente, a exposição cumpre a missão do museu de ampliar narrativas latino‑americanas a partir de práticas colaborativas, indígenas e de gênero.

A técnica central do coletivo Silät se baseia na tradição dos Wichí de entrelaçar manualmente os fios de chaguar para criar as bolsas yicas, objetos de uso cotidiano e simbólico, com padrões geométricos que remetem às formas da natureza: orelhas de tatu, olhos de coruja, cascos de tartaruga. A partir de oficinas que questionavam novos formatos para as yicas, o grupo se organizou em 2023 para produzir tecidos em contexto artístico, ampliando o repertório visual além dessas referências tradicionais. A preparação do fio passa, assim, de processo utilitário a forma de pesquisa estética, com a adição de corantes intensos em anilina, gerando matizes exuberantes em laranjas e fúcsias, que contrastam com a paleta historicamente terrosa e azulada.

A inovação mais significativa no processo de Alarcón & Silät está na maneira de tecer em conjunto. Enquanto tradicionalmente as mulheres Wichí trabalhavam em completa autonomia, o coletivo desenvolveu métodos de colaboração, em que várias tecedeiras podem trabalhar simultaneamente em uma mesma peça ou continuar o fio de outra integrante. Esse gesto transforma o têxtil em “coro” de vozes, evidenciando na obra elementos poéticos contemporâneos, como Kates tsinhay — Mulheres Estrelas, 2023, que dialoga com o mito das mulheres‑estrelas que desciam à Terra por fios de chaguar e, ao serem capturadas, geraram uma ancestralidade feminina no plano terreno. Mitologias tayhi, ou “monte” — como o território é conhecido em espanhol —, irrigam a abstração de trabalhos como Kyelhkyup — O Outono, 2023, que traduz em cromatismos e formas orgânicas os ciclos naturais do Gran Chaco.

Alarcón ressalta que o tecido tornou‑se uma forma de memória indizível oralmente: “Recupero lendas e histórias do nosso povo, sinto que tem muito trabalho a ser revivido. O tecido também fala”. A instalação Hilulis ta llhaiematwek — Um Coro de Yicas (2024‑25) reúne mais de cem bolsas produzidas individualmente, mas exibidas lado a lado, onde a pluralidade de cores e padrões insiste na crítica à desvalorização do saber ancestral e ao trabalho precarizado das tecedeiras. Em molduras ou estruturas verticais de madeira — que imitam o modo de uso na comunidade —, a montagem aponta para o caráter político dos tecidos como bandeiras de luta e denúncia, como em N’äyhay wet layikis — Caminhos e Cicatrizes, criado para o Dia da Independência da Argentina, para denunciar a repressão de povos indígenas pelo Estado.

Claudia Alarcón & Silät integra a programação do MASP dedicada às Histórias Latino‑Americanas, que, neste ano, inclui mostras de La Chola Poblete, Sandra Gamarra Heshiki, Santiago Yahuarcani, entre outros nomes. A exposição reforça a ideia de que arte, política e identidade se tecem no mesmo fio, e que o chaguar, além de resistente, é ainda um material de proposição estética e ética.

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