Romance de Flávia Iriarte transforma experiência real em tragédia contemporânea sobre amizade, classe e misoginia

“Instruções para desaparecer devagar”, de Flávia Iriarte, romance inspirado em uma experiência real da autora no Sudeste Asiático, chega às livrarias pela Editora Faria e Silva trazendo à tona as violências sutis e brutais que atravessam a vida das mulheres. A obra parte de uma situação tensa: um quarto de hotel sem tranca, a noite escura de uma cidade estrangeira e o medo de que algo irremediável aconteça. A partir desse núcleo de terror, a narrativa acompanha uma viagem entre amigas que é interrompida por um evento traumático, forçando as protagonistas a encarar hierarquias sociais, culpas não admitidas e os alicerces frágeis de suas próprias identidades.
A narrativa, construída em cortes secos e atmosfera de constante desconforto moral, foge do melodrama e investe numa linguagem objetiva, porém densa, que dialoga com o cinema de Michael Haneke e os romances de J.M. Coetzee, Elfriede Jelinek e Arnon Grunberg. Referências como “Desonra”, de Coetzee, e “Caché”, de Haneke, ajudam a sustentar a tensão e a análise crítica da misoginia. A autora cita também a escritora contemporânea Mariana Brecht e seu livro “Brazza” como influência para a construção de uma história de forte impacto psicológico. A obra é descrita em blurbs de Bruna Maia e Carola Saavedra como uma travessia ácida, corrosiva e melancólica sobre a perda de inocências, hierarquias de classe e a violência enraizada no patriarcado.
Flávia Iriarte define o romance como uma “tragédia contemporânea”, atualizando a estrutura clássica de Aristóteles – o erro trágico, a peripécia, a queda – para um mundo em que o destino não é ditado por deuses, mas pelas forças sociais do capital, gênero, privilégio e raça. “O romance se apoia na estrutura trágica, mas atualiza isso para um mundo em que o destino já não é mais imposto pelos deuses, e sim pelo próprio indivíduo, produto do seu lugar de classe, gênero e raça”, explica a escritora. A atmosfera opressiva, com planos curtos e cortes rápidos, reforça a sensação de vulnerabilidade e desconforto, espelhando a percepção de que, para muitas mulheres, o perigo parece sempre estar à espreita.
Com formação em Cinema pela UFF e mestrado em Literatura pela PUC‑Rio, além de mais de 15 anos de experiência como editora, Flávia se consolida como uma das vozes mais atentas da ficção brasileira contemporânea. Fundadora da Editora Oito e Meio e da escola online Carreira Literária, que já orientou mais de 8 mil escritores, ela traz para o romance uma construção precisa, com foco na complexidade psicológica das personagens. Temas como diferenciais de classe, culpa branca, amizade feminina e a relação entre juventude e violência são abordados sem concessões ao sensacionalismo, expondo o quanto a passagem para a vida adulta pode ser uma fase especialmente violenta para as mulheres.
Flávia Iriarte, vencedora do Prêmio Jovens Talentos da Indústria do Livro em 2016, afirma que “antes de ser escritora sou, em primeiro lugar, leitora. Depois, editora e professora de escrita criativa. Escrever é só uma consequência disso”. Em “Instruções para desaparecer devagar”, a autora registra como experiências marcantes deixam rastros profundos, gerando um lento processo de desvanecimento de certezas, identidades e narrativas internas. O romance, marcado pela lucidez e pelo olhar político, funciona tanto como um relato de terror íntimo quanto como um retrato contundente das dinâmicas de poder que moldam a vivência feminina no mundo contemporâneo.
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