Mostra individual em São Paulo reafirma a pintura como linguagem solitária, matérica e profundamente introspectiva

Para marcar a primeira década de atuação no mercado de arte contemporânea brasileira e internacional, a Janaina Torres Galeria apresenta a exposição individual Deborah Paiva (1950–2022): Uma Antologia, com curadoria de Tadeu Chiarelli. A mostra tem abertura prevista para 7 de março, das 14h às 18h, e permanece em cartaz até 30 de abril em São Paulo. Com um conjunto inédito de obras, a exposição celebra a trajetória da artista sul‑matogrossense radicada na capital paulista, reafirmando a pintura como território autônomo e profundo, em um momento histórico em que a linguagem pictórica perdia centralidade para outras formas mais espetacularizadas.
Deborah Paiva (Campo Grande, 1950), que faleceu em 2022, construiu uma obra marcada por um senso forte de liberdade e fidelidade à experimentação. Seus primeiros trabalhos se aproximavam da tridimensionalidade, com peças de grande dimensão e caráter quase instalativo. Ao longo do tempo, sua pesquisa foi voltando‑se, de forma gradual, para a linguagem pictórica, transitando por investigações matéricas próximas à arte povera, quando utilizou elementos como areia, palha, encáustica e diferentes densidades de tinta. Mais tarde, convergiu para a depuração da pintura, com formatos mais reduzidos, superfícies menos densas e uma paleta de silêncio, introspecção e delicadeza que reforçam a condição íntima da pintar.
Essa inflexão, porém, não se reduz a um movimento biográfico ou psicológico, mas sim a uma tomada de posição diante da própria condição da pintura no fim do século XX e início do XXI. A obra de Deborah Paiva desafia a dicotomia tradicional entre abstração e figuração, pois figuras e fundos se contaminam, dissolvem‑se mutuamente e se confundem, sem estabelecer hierarquias fixas. Ao mesmo tempo, a artista insiste em retornar à pintura em um período em que a linguagem via seu “statement” ser questionado, reforçando um trajeto de resistência interna, voltado para o gesto, a matéria e o tempo do fazer. Ela nunca se prendeu a um estilo único ou a um programa estético fechado, e evitava a combatividade que se tornou tópica naquele momento, optando por um percurso mais contido, mas não menos exigente.
A partir de 2010, grande parte de sua iconografia ganha uma assinatura própria, com imagens abstratas costuradas a figuras humanas, em sua maioria femininas, muitas vezes apresentadas de costas, de perfil ou com o rosto encoberto, além de interiores e paisagens. Essas composições não se concentram apenas em narrar a solidão existencial do sujeito, mas operam como metáfora da própria solidão da pintura, que, em meados do século XXI, se vê isolada, voltada para si mesma e relativamente afastada do centro do debate contemporâneo. Tadeu Chiarelli, ao desenvolver o texto crítico que acompanha a exposição, recupera também um conceito de Walter Benjamin sobre o “valor de culto” da obra de arte, destacando que Deborah privilegiou o caráter íntimo, silencioso e não monumental da pintura, em oposição à lógica do valor de exibição, que passou a predominar com o advento da reprodutibilidade técnica.
Outro movimento importante na abordagem de Chiarelli é a revisão crítica de sua própria leitura prévia sobre a obra de Deborah Paiva. Em texto de 1997, o curador interpretava a produção dela como um efeito direto da suposta “liberação” da pintura dos anos 1980, associando‑a ao momento conhecido como “volta à pintura”. Hoje, ele reconhece a falácia dessa premissa, ao constatar que a pintura nunca desapareceu, mas perdeu protagonismo perante outras linguagens emergentes. Ao rever essa leitura, Chiarelli percebe que classificar a obra de Deborah como fruto de uma liberdade recém‑conquistada foi um atalho que impediu o entendimento de sua complexidade. Agora, passa a vê‑la como resposta à condição de isolamento da pintura contemporânea: “Toda obra de Deborah não expressa ou representa a solidão nos dias de hoje: ela é a solidão encarnada na pintura”, escreve.
Serviço
Exposição: Deborah Paiva – Uma Antologia
De 07 de março a 30 de abril
Abertura: Dia 07 de março, das 14h às 18h
Dias e horários de visitação: Terça a sexta, das 10h às 18h e sábados, das 10h às 16h.
Local: Janaina Torres Galeria
Endereço: R. Vitorino Carmilo, 427 – Barra Funda, São Paulo – SP, 01153-000
Grátis
Faixa etária: livre
Possui acessibilidade para cadeirantes
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