Em seu livro de estreia, o autor transforma a fricção entre escritório e escrita em matéria literária

Publicada pela editora Mondru, a obra é estruturada como um vira-vira, sem começo ou fim definidos: o leitor pode entrar tanto por “corpo_ativo” quanto por “poemática”, dois lados que encenam a mesma tensão entre produtividade e desejo de criar a partir de perspectivas complementares.
Nascido de uma crise identitária durante a pandemia, enquanto Caio trabalhava no setor de turismo, “dia útil” registra o vai e vem entre conformismo e revolta diante da necessidade de “bater ponto” e, ao mesmo tempo, afirmar-se como artista. Essa oscilação aparece em uma linguagem híbrida que vai de fórmulas de Excel a sonetos, passando por listas, cartas formais e poemas visuais, refletindo a sobreposição de trabalho, exaustão, silêncio e tentativa de recuperar uma identidade soterrada pela lógica do expediente. O livro explora a erosão dos sonhos em um cotidiano guiado por metas e resultados, mas também a resistência teimosa da arte nesses intervalos.
Caio assume a poesia como o gênero capaz de acomodar contradição, interrupção, cansaço e respiro, construindo textos concisos, observacionais e ancorados no cotidiano. Referências a autores como Rosa Montero e Ferreira Gullar aparecem no modo como ele transforma o dia a dia e o próprio processo criativo em tema, reivindicando o conflito entre ser trabalhador e ser artista como um território legítimo de existência, e não como falha pessoal. O livro funciona, assim, como um manifesto sobre vulnerabilidade, ao mesmo tempo em que marca o momento em que o autor se permite reconhecer a escrita como parte essencial de si.
A trajetória de Caio — da infância em Cajamar (SP) à formação em Lazer e Turismo pela USP, passando por uma carreira no turismo marcada por mobilidade social e insegurança — atravessa os poemas como pano de fundo. Em “dia útil”, ele convida o leitor a enxergar a poesia nas frestas do expediente, nas margens das planilhas e no ruído surdo da rotina, afirmando que arte e trabalho não são opostos, mas forças que se atravessam, se contaminam e, muitas vezes, se sustentam sob tensão.
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